#01 - A Vocação Intelectual


O livro "A Vida Intelectual" de Antonin Sertillanges é destinado “àqueles que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida”. A intenção do autor fica explícita já nas primeiras linhas do livro: ajudar e orientar o leitor num “profundo desenvolvimento do espírito”, na medida em que isso é possível por meio de uma obra escrita como essa que já se tornou um clássico introdutório da filosofia tomista.
O autor faz questão de indicar já nos primeiros parágrafos a que tipo de estudante ele quer auxiliar: aquele que tem vocação e tem ciência que o seu amadurecimento intelectual não acontecerá sem esforço, dedicação e organização. Uma vocação intelectual, diz Sertillanges, não se satisfaz de modo algum com leituras soltas e trabalhinhos esparsos.
O estudante que toma por guia o pensador francês não é iludido com promessas de reconhecimento e riquezas. Ao contrário, desde o princípio aprende o seu devido lugar: é um escravo da verdade. Apenas se colocando dessa maneira diante do oceano do conhecimento poderá verdadeiramente crescer enquanto “atleta da inteligência”.
A vida do vocacionado é cheia de obrigações, impõe muitas privações. É uma vida que exige austeridade, longos treinos e uma entrega sincera. Esse esforço, contudo, não é em vão. Na mesma medida da sinceridade de seu interesse alcançará as verdades eternas, imutáveis. Talvez até obtenha a graça de conhecer a Deus.
A genialidade não é uma característica tão indispensável quanto a vontade, essa sim determinante para o sucesso nesta caminhada. Ao contrário, o orgulho e a soberba dos gênios podem se tornar escamas diante de seus olhos e torná-los cegos para a realidade que o cerca.
Imagine um estudante verdadeiramente engajado em alcançar essas tais verdades. Um rapaz interiorano no Brasil do século XVIII, isolado, privado de recursos intelectuais e de convívios estimulantes, condenado a apodrecer em algum fim de mundo, longe das ricas bibliotecas, das aulas brilhantes, possuindo apenas a si mesmo. Imagine esta situação e agradeça aos céus por ter à sua disposição, à distância de alguns cliques, mais informação do que a maior parte dos grandes pensadores jamais sonhou em ter.
O que talvez lhe falte seja organização e senso de discernimento para o que realmente é elementar. O que vale acima de tudo, ensina Sertillanges, é o querer, um querer profundo: querer ser alguém; chegar à alguma coisa.
Tem duas horas por dia? Ou, como propõem alguns estudantes reunidos no grupo “Contra os Acadêmicos”, é capaz de ler trinta páginas por dia? Pode se comprometer nesse esforço mínimo afim de estabelecer em seu cotidiano o costume de reservar um certo espaço do seu dia para as coisas maiores?
Se a resposta for sim e se perseverar os resultados não tardarão, mesmo que aos poucos já que o conhecimento nunca pode ser acessado de uma única vez -  Santo Tomás já alertava que deve-se buscar os riachos e esperar que eles o levem às águas profundas dos mares.
[...] O senhor também, um dia, se Deus quiser, encontrará um lugar na assembleia dos nobres espíritos”.

O intelectual é um consagrado à verdade. Não pode, sob hipótese alguma, deixar-se tentar pelos fantasmas do individualismo – que para Sertillanges é essencialmente inumano.
É impossível afastar-se completamente dos outros indivíduos por qualquer razão que seja e não passar a ter sua leitura da realidade viciada, mutilada. O intelectual é, em primeiro lugar, um homem. Por isso mesmo não deveria nem tentar afastar ou questionar as subjetividades que compõem e/ou influenciam seu trabalho - tais como os sentimentos, necessidades, virtudes e pecados, contexto social e histórico, etc.
Toda verdade é prática, alerta o autor. O intelectual deve trabalhar num “espírito de utilização”, devem estar sempre dispostos a ajudarem as pessoas ao seu redor e identificar aqueles que podem ser salvos da ignorância e da perdição.
“Não há tantas verdades que não sejam as verdades redentoras, e não seria em vista de nosso trabalho como de tudo o mais que o Apóstolo disse: ‘a vontade de Deus é que sejais santos’?”
Sertillanges se preocupa, ainda, em colocar o estudante em seu devido lugar histórico. Temos um compromisso com o nosso tempo da mesma maneira que temos com os nossos contemporâneos. Neste ponto, o autor compartilha conosco no contexto em que estava inserido enquanto escrevia sua obra. É, de fato, uma situação terrível e angustiante - o tipo de época que forja heróis e santos:
Eis-me, homem do século 20, contemporâneo de um drama permanente, testemunha de transtornos como talvez nunca o globo havia visto desde que surgiram os montes e que os mares foram perseguidos para dentro de seus antros. O que devo fazer por esse século resfolegante? Mais do que nunca o pensamento aguarda os homens e os homens o pensamento. O mundo está em perigo por falta de máximas de vida. Estamos num trem propelido a toda velocidade, sem nenhuma sinalização à vista, nenhum agulheiro. O planeta não sabe para onde está indo, sua lei o largou: quem vai lhe restituir o sol?
Sertillanges não restringe o desenvolvimento intelectual à religião, pensamento comum à certos puritanos recém-chegados (também conhecidos como pão-com-ovo). Todo o conhecimento, para o autor, tem utilidade prática. Sertillanges também descarta o que chama de “tendência ideológica”, um amor cego pelo passado em detrimento do presente (típico dos chamados rad trads), ignorando a onipresença e onipotência de Deus.
Não vamos nos assemelhar àqueles que dão sempre impressão de estar carregando os cordões do pano portuário dos funerais de antigamente. Utilizemos o valor dos mortos para viver. A verdade é sempre nova. Como a relva da manhã recoberta de um delicado orvalho, todas as virtudes antigas tem vontade de reflorescer. Deus não envelhece. É preciso ajudar esse Deus a renovar não os passados sepultados e as crônicas extintas, mas a face eterna da terra.
Para o filósofo francês, o espírito do intelectual cristão está diretamente atrelado à sua vocação verdadeira. Por tanto, quanto mais cedo conseguir definir aquilo que verdadeiramente lhe suscita o ânimo pelo estudo, melhor serão os resultados obtidos e mais rapidamente seu espírito se desenvolverá, fará a transição de um estado inferior para um estado superior.

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