Franz Kafka e o mundo invisível

Pintura "São Pedro escrevendo suas epístolas" de Valentin de Boulogne


O mundo do “conteur” Franz Kafka é uma casa burguesa, solidamente construída na aparência, com uma fachada um pouco descuidada. Entramos e respiramos o ar das penúrias dolorosas, de quartos mal ventilados. Apodera-se de nós o sentimento do que já foi visto. A escada range. O seu quarto é uma loja de recordações. Um canto guarda os brinquedos esquecidos. Recordações, recordações. Os mortos surgem. Os fantasmas que apavoravam a criança. Figuras de demônios. Um labirinto. Delírio. Fuga. Nenhuma abertura. Voltamo-nos para o outro lado: aparece a face de Deus.

Franz Kafka não é um poeta religioso: não trata nunca de religião nas suas obras. Mas é um espírito profundamente religioso e o seu mundo é cheio de seres sobrenaturais donde emana uma impressão inquietante, como o encontro com uma mitologia desconhecida, que tivesse descido sobre a nossa vida quotidiana. Esta irrupção do sobrenatural no mundo não o salva: enche o homem de terrores desconhecidos. O “numen” de Kafka é um “numen tremendum”. A religião de Kafka não é a religião fácil dos bem-pensantes, a quem o seu Deus garante todas as ordens deste mundo; o Deus de Kafka faz estremecer os fundamentos do céu e da terra. “Minha fé é como uma guilhotina, tão leve e tão pesada.” É a ameaça mortal que antecede a esperança vital.

Esta é a religião daqueles que a psicologia religiosa de William James chama os “twice-born”, aqueles que nascem duas vezes, aqueles cuja fé nasce das convulsões da agonia: Agostinho, Martinho Lutero, Blaise Pascal, Soren Kierkegaard.

Esses terrores e esses esplendores, Kafka os escondeu nos andrajos da vida quotidiana, pois “quem vir descoberta a face de Deus, morrerá”.

A pessoa e a vida de Franz Kafka estão também cobertas por um véu. Nasceu em 1883 em Praga, filho de família pequeno-burguesa, com essa nacionalidade incerta, alemã-tcheco-judia, característica dos meios dessa cidade. Desde a sua infância, o humanismo alemão desses meios é flanqueado pelo cabalismo judaico e pelo misticismo eslavo.


Estou

limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, 

a leste pelo apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

(Murilo Mendes)



A vida corre nos quadros da burocracia subalterna. Tísico, morre num sanatório de Viena, em 1924. O seu testamento ordena a destruição dos seus manuscritos, que o executor, Max Brod, editará arbitrariamente.

A sua obra se compõe: de aforismos, que se estendem às vezes em parábolas; de parábolas, que se estendem às vezes em contos; de contos, dos quais três se estendem em romances, fragmentários, da mais alta concisão, donde poder-se-ia condensar o assunto numa parábola, num aforismo. A língua é muito límpida e muito fácil, carregada de estranhas metáforas. Kafka descreve a vida quotidiana dos gabinetes, dos cabarets, das casas de família; mas esses lugares banais são cheios de potenciais demoníacos contra os quais o homem luta desesperadamente. Esse misto de clareza e de mistério revela a fragilidade do nosso mundo, surpreendido pela catástrofe. Acontecimentos simples revestem-se de uma tensão febril. A língua lúcida faz adivinhar um outro mundo. Os personagens falam, comem, dormem, seguem os caminhos escuros e estreitos; mas são os caminhos do inferno e do paraíso, são os caminhos “per realia ad realiora”.

O primeiro romance aparecido depois da morte do autor foi “O Processo”. O seu herói chama-se K., simplesmente K. Um dia, na rua, K. é subitamente preso. Explicam-lhe que um processo importante está se desenvolvendo contra ele; aconselham-no a confessar e, em seguida, soltam-no afim de que possa prosseguir na sua defesa. A prisão não passava de uma provocação por parte de um estranho tribunal: o próprio K. tem de criar pelas suas atitudes as razões da sua absolvição ou condenação. E K. cria o delito mortal, prevalecendo-se obstinadamente da sua inocência. Faz tudo o que se pode fazer: contrata um advogado e um médico, corrompe o carcereiro e o escrivão. Todos esses compreendem o processo tanto quanto K., mas todos estão convencidos da justiça e do todo poder do tribunal; aconselham-no a confessar um crime que K. não conhece e não quer conhecer. De uma maneira misteriosa, todos são empregados do tribunal, assim como executamos, sem o saber e sem o querer, os desígnios da Providência. Pelas suas atividades, K. não faz mais que jogar o processo contra si mesmo. Obstina-se. Pelas suas providências apressa a catástrofe que será a sua condenação e execução. O delito desconhecido está vingado.

O delito desconhecido é o pecado original. A prisão é o signo da predestinação. E o que K. evita pelas suas falsas atividades é a graça. Há nesse romance uma lembrança incerta de certas palavras do Senhor: “Muitos serão chamados, mas poucos serão eleitos”, e “aquele que quiser salvar sua vida, a perderá”. Mas as palavras evangélicas perdem-se neste mundo de provação e de desespero, onde a todo momento o tribunal está presente e a forca armada. “É somente a noção que temos do tempo” , diz Kafka , “que nos faz datar o último julgamento; na verdade é uma corte marcial que preside todos os nossos dias.” Mas o céu negro se iluminará, um dia, sobre estas cenas de horror. No seu diário, Kafka copiou as palavras de Lutero: “Deus não é inimigo dos pecadores, mas somente dos descrentes que não reconhecem seu pecado nem procuram o apoio de Cristo, mas que procuram, temerariamente, a purificação em si próprios.”

Em torno deste romance, alguns contos explicam a situação do homem. “A Colônia Penitenciária” é uma como uma espécie de continuação do “Processo”. Nesta colônia, uma terrível máquina de precisão grava, no corpo dos forçados, por meio de agulhas incandescentes, o nome do delito, que lhes são desconhecidos. A tortura é a única esperança, pois saber o nome do delito é a condição preliminar para saber se justificar.

Em “A Transformação”, um jovem é subitamente transformado num hidoso (horrível) inseto que os seus próprios parentes querem matar. O homem, submergido pela vida banal de todos os dias, não é mais a imagem de Deus; não se pode parar essa queda, onde se desejaria, em alguma etapa propícia; e a queda torna-se radical até se perder o direito de existir.

A transformação tornou-se definitiva nesta pequena obra-prima chamada “A Inquietação do Pai Celeste”. Esta inquietação do Pai misericordioso, é uma bobina, destituída de fios; coisa absolutamente inútil, sem nenhuma significação, mas que não descansa nunca, que sobe e desce incessantemente a escada, até o último dia. — “Como te chamas?” — “Odradek”; nome eslavo, de origem incerta, significando “apóstata”.

Em todas essas parábolas, como no “Processo”, o homem é a vítima passiva da perseguição celeste, relembrando “O Galgo do Céu” de Francis Thompson. Mas Kafka não condena a atividade: “Há dois pecados cardeais donde se poderia deduzir todos os outros: a impaciência e a preguiça. Por causa da impaciência foram expulsos do paraíso; por causa da preguiça lá não podem voltar.” O que Kafka quer excluir é a falsa direção das nossas atividades, no sentido da segurança neste mundo. No conto “Le Terrier de Blaireau”, o animal, temendo a perseguição dos cães, decide alargar e fortificar o seu edifício subterrâneo. Cava buracos sobre buracos, corredores sobre corredores, até que afinal esquece a única saída. Então o animal agacha-se no seu canto, aprisionado e sem saída, e espera, indefinidamente, numa estranha solidão, atento aos ruídos funestos ou ao silêncio ainda mais terrível.

A falsa direção das atividades humanas é o assunto da obra-prima de Kafka: o romance inacabado “O Castelo”.

Ainda aqui o herói chama-se K., simplesmente K. Mas o seu contrário não é mais o tribunal, porém, o Castelo, o lugar onde a graça está concentrada. Ao pé desse Castelo há uma aldeia, onde os camponeses, crentes humildemente submissos, executam a sua tarefa diária. K. também desejaria ser camponês nessa aldeia. É preciso acentuar: ele o quer, ele o exige mesmo. Desejaria obrigar o Castelo a lhe conceder o direito de permanência. Quer forçar esta comunhão dos fiéis, sem ter obtido a graça.

Numa fria tarde de inverno, K. chega, contando com a piedade que não fará voltar o peregrino. Com efeito, o hospedeiro acolhe-o. K. é modesto; quer somente achar um emprego de diarista. Sim, há sempre possibilidades. Nesse ínterim o filho do castelão aparece para expulsá-lo. K. desesperadamente recorre à mentira: “O Castelo contratou-me como nivelador.” Resolvem telefonar para o Castelo. E o Castelo responde de maneira surpreendente (“K. estremece ligeiramente”): “Sim, K. é o nivelador contratado.” É o primeiro dom voluntário da graça; mas contém uma punição. Pois o Castelo acrescenta: “K. tem, portanto, permissão para ficar; mas o seu contrato foi um lamentável equívoco, aqui não temos trabalho para um nivelador. K. tem permissão para ficar, mas não para trabalhar.”
Deste modo, K. encontra-se impossibilitado de certificar-se do seu trabalho e de justificar sua presença na aldeia. Sua vida será vazia, destituída de qualquer sentido, como a nossa vida quotidiana sem a vocação interior. K. não está contente. Não quer ser tolerado. Quer o direito de permanecer, o direito em si mesmo. Quer extorquir a graça. Recorre aos meios impuros, perde-se em mentiras e subterfúgios. Tudo em vão. Esgotado, enfim, cai gravemente doente. Espera a morte.

O livro está nas últimas linhas. Uma anotação explica-nos o fim: “Quando K. está à morte, chega a decisão definitiva do Castelo: K. não tem nenhum direito de ficar na aldeia; mas considerando-se certas circunstâncias acessórias, será permitido que aí fique até a morte.”

No “Processo”, o Céu condena o homem. No “Castelo”, o homem condena o Céu. É o cúmulo da temeridade titânica. “Uns negam a miséria evocando o sol; outros negam o sol evocando a miséria.” O homem, em Kafka, não vê na sua miséria a conseqüência da sua condição humana. Revolta-se. Acusa Deus, como Ivan Karamazov. A face de Deus recebe traços blasfêmicos.

Em toda parte, no mundo desse Deus, há tribunais e forcas. Não parece que esse Deus queira a redenção. “O verdadeiro caminho segue sobre uma corda, lançada muito perto do chão; parece ser destinada mais a fazer tropeçar que a ser transposta.” Às vezes Kafka atinge uma inversão diabólica: “Alguns leopardos forçaram o templo e beberam em todos os vasos sagrados. Isto repetia-se freqüentemente. Até que conseguiram calcular a hora em que chegavam e faziam deles uma parte do cerimonial.” Tais blasfêmias lembram a zoolatria dos Gnósticos. Mas um outro aforismo diz: “O nosso mundo não é mais do que um mau-humor de Deus. Há esperança, muita esperança, mas não para nós homens.” Este “não para nós homens” equivale a uma grande confissão que restitui os verdadeiros valores. “Todas essas parábolas dizem somente que o incompreensível é incompreensível.” Na aparência dessas parábolas Deus não tem razão; mas esta falta de razão não significa que haja uma incapacidade do homem diante do comando de Deus. Na aparência dessas parábolas, Deus se cala; mas isto significa somente que o mundo não o está escutando. Há, portanto, esperança, muita esperança. No fim do “Castelo”, a graça aparece. Fato simbólico, Kafka não estava destinado a escrever esse fim.





*





Franz Kafka, segundo uma frase de Kierkegaard, “aspirava a uma mais alta imortalidade que a da glória”. Kafka queria que a sua obra morresse com ele para servir de testemunho em seu favor, perante o tribunal de Deus. A despeito dele o seu dia chegará, se já não chegou.

À propagação dessa obra opõem-se obstáculos do destino. A sua publicação póstuma não encontrou nem leitores, nem críticos. Dez anos depois da sua morte, um André Gide, um Charles Du Bos, deploram a inacessibilidade das obras, a inexistência de traduções. Uma casa editora de Praga promete a publicação das “Obras Completas”, a “Nouvelle Revue Française” traduz alguns contos. A edição de Praga é interrompida pela débacle do Estado Tcheco. A tradução integral, prometida em França, talvez nunca apareça. A despeito de tudo, o seu dia chegará, se já não chegou.

Todos esses obstáculos aprofundam mais a virtude desse pensamento, em vez de apagá-lo. Existe uma herança que se deve conservar. A reflexão sobre o lugar de Kafka na literatura universal é um dever.

A abstração feita de alguns pontos de contato com Heinrich von Kleist, e E. T. A. Hoffmann, a presença de Kafka na literatura alemã é simplesmente ocasional. O seu lugar está na literatura européia de após-guerra. O simbolismo de Kafka perturba o mundo, pela transposição dos acentos, pela desvalorização dos fatos tradicionais, pela revelação de um mundo mais real atrás dos mundos dos bem-pensantes: “per realia ad realiora”. Eis o lema de Anton Tchékhov, a quem Kafka deve a técnica do conto. Mas um traço significativo distingue Kafka radicalmente deste grande contista pessimista do fim do século: a noção do tempo. Os homens de Tchékhov vivem no seu tempo, no tempo do seu mundo. Mas o tempo, em Kafka, é um fato extramundano. Não é o tempo psicológico de Proust. É antes um tempo religioso: o caminho da aldeia ao castelo, “dois quilômetros mais ou menos”, leva séculos, Aeous, a ser percorrido; não se pode dizer a respeito de nenhuma obra de Kafka em que século se desenvolve. A era dos deuses e a vida quotidiana dos nossos dias se confundem. Não existe tempo, há unicamente uma data: a da irrupção do divino no mundo, acontecimento que se repete todos os dias, todas as horas.

Esta ausência do tempo humano destrói o mundo e isola os homens, que se tornam comparáveis aos personagens plásticos de um Chirico, aos cantos “homófonos” de um Stravinsky, aos anjos de um Cocteau, de um Rilke. A psicologia desses homens é uma psicologia de monstros revoltados, como em Julien Green. A sua vida quotidiana é destituída de sentido como nos contos de um Bontempelli. E a sua vida real se passa na atmosfera mágica dos romances de Marcel Jouhandeau.

Todas essas comparações só têm como finalidade estabelecer mais solidamente as oposições. A corrente literária de após-guerra acha-se diante de um montão de ruínas. O mundo é um cadáver que se decompõe porque o espírito abandonou o corpo. A literatura e o pensamento modernos tentaram contentar-se somente com os destroços, olhando-os primeiro como brinquedos de uma nova infância, e em seguida como pedras para construir o futuro; são as etapas do primitivismo e do construtivismo. Mas se reconhecerá o verdadeiro estado de coisas e um profundo desespero prevalecerá. Este desespero se conformará ou não se conformará: ele afirma e confirma a decomposição do mundo por meio de uma nova psicologia, onde se opõe pelas expressões de um pessimismo cínico. São estas as posições do romance e da poesia modernos.

O que é comum a todas essas correntes é o relativismo que não mais admite a integralidade do mundo, exceto as raras que mergulham na fé tradicional. A atitude de Franz Kafka é muito diversa. Não se contenta com os destroços como os “fragmentistas” italianos; não se conforma nem se decompõe. Não é nem tradicional nem relativista. Entre dois mundos e entre duas épocas, coloca-se em caminho; e no caminho de Damasco.

Esta atitude o coloca no meio de duas grandes correntes dos nossos tempos: uma na França, os novos estudos pascalianos que giram em torno do problema da graça e inspiram até o André Gide de “L’École des Femmes”; a outra na Alemanha, a “Teologia Dialética” de Karl Barth e de Emil Brunner, que gira em torno do abismo dialético, a incomensurabilidade entre Deus e o mundo, e faz reviver a obra esquecida de Soren Kierkegaard.

No abismo entre o Deus soberano dos dialéticos e o homem falido de Pascal, Kafka procura o lugar da graça. É Pascal quem define a situação. No artigo XV das “Pensées” enumera as quatro possibilidades do homem: primeiro, o homem conhece a Deus, mas não a sua miséria; é o caso do farisaísmo orgulhoso. Segundo, o homem conhece a miséria de Deus, mas não conhece a dele; é o desespero ateístico. Terceiro, o homem conhece a Deus e a sua miséria, mas não a graça; é a angústia. Quarto, o homem reconhece em Jesus Cristo seu Deus, sua miséria e sua graça.

A posição de Kafka é a terceira. É a posição do judaísmo perante o seu Messias encarnado. Mas é também a posição atual do mundo apóstata que renuncia à graça e declara-se pagão, cheio de orgulho e de angústia. Não se é mais pagão depois de Jesus Cristo: a velha inocência desapareceu; ou procuramo-Lo, ou renegamo-Lo. Em vão, “a angústia da lei”, maltrata o rabino Saul antes dele ter visto a luz do mundo. Uma nova fé vem nascer do caos de uma alma em desespero. “Como cumprir a vontade de Deus? Teme-se que essa lei não seja mais do que uma tentação. E se o seu cumprimento não representar nada para Deus?” É um aforismo de Kafka. Mas o apóstolo Paulo poderia ter dito isso. É a confissão de um homem no caminho de Damasco.

O caminho de Damasco é a única saída desta prisão que é o nosso mundo envenenado. Todos os outros caminhos são subterfúgios inúteis, tergiversações que arruinam cada vez mais, sem a possibilidade de uma libertação. Sem a graça não se escapa deste mundo. As seguranças exteriores são vaidades. Em vão nos entrincheiramos atrás linhas Maginot do nosso “terrier du blaireau”. Enfim, somos os prisioneiros das nossas próprias prisões, para assistir, de uma maneira impotente a nossa débacle decisiva. Só há um caminho de liberdade: o caminho de Damasco.

A obra de Franz Kafka é um indicador na direção desse caminho. Nela se lê o seu aforisma, cheio de aflição e de esperança: “Quem procurar, não encontrará; quem não procurar, será encontrado.” E uma voz lhe responde, através de Pascal: “Consola-te, não me procurarias, se não me houvesse encontrado.”




Tradução de C. G. Lima Cavalcanti.
Correio da Manhã (RJ), 27 de abril de 1941.

0 comentários:

Postar um comentário