Obituário: B. Lopes, o poeta boêmio

outubro 20, 2017


Nós nos vimos integrando na compreensão dos destinos do Brasil, da qual tão desviados andávamos... O Brasil, país imenso e novo, precisa produzir e progredir. Cada cidadão, pois, deve organizar a sua vida dentro de normas utilitárias e práticas. O poeta boêmio é, assim, um tipo que aqui não pode mais existir. O último deles foi decerto esse pobre B. Lopes, ontem colhido pela morte.

É de notar que o próprio B. Lopes, além de poeta integralmente boêmio, era Bernardino da Costa Lopes, funcionário aposentado dos correios.

Obituário: Sir Winston Churchill

outubro 11, 2017

Winston Churchill, ex-primeiro-ministro britânico



Churchill. Publicado pelo jornal "Correio da Manhã" em 26 de janeiro de 1965.

Houve um momento em que a Inglaterra esteve sozinha na guerra contra a Alemanha. Os exércitos nazistas ocupavam a Europa ocidental com a exceção da Espanha e de Portugal que permaneciam neutros em face do conflito. A França havia tombado diante de Hitler, e Pétain, que assumira o governo, dispusera-se a assinar a rendição de seus exércitos tal como a Alemanha exigia. A situação da Inglaterra era a mais grave e a mais dramática possível. Não estava preparada para a guerra. Hitler tinha conhecimento do clima de apreensão que existia no governo inglês. Começaram as tentativas de invasão e, em seguida, os bombardeios de Londres. Estaria tudo perdido? O que estava em jogo não era só o destino do Império Britânico. Era também o destino da democracia na Europa. Foi nesta hora que a personalidade de Winston Churchill manifestou-se em toda a sua grandeza. A energia, a perseverança, a indomabilidade de seu temperamento combativo contribuíram para criar as condições necessárias de resistência que levariam um povo ameaçado a defender igualmente a nacionalidade e o regime. Porque a segunda guerra mundial era bem diferente da primeira. Não se tratava, apenas, de defesa nacional. Tratava-se de luta contra o fascismo, contra o regime totalitário que poderia, pelo terror, conduzir a humanidade a uma nova Idade Média, ainda mais funesta, porque seriam empregadas contra a civilização as próprias conquistas da tecnologia e da ciência. Tratava-se de preservar a liberdade humana que se achava em perigo diante da ofensiva gigantesca de uma máquina de guerra que visava à escravização da humanidade.

A Inglaterra esteve só. A França recusara um convenio de aliança instalado em Londres. A Rússia de Stalin assistia impassível à conquista da Europa em vista da Europa em vista do pacto de não-agressão que assinara com a Alemanha. Os Estados Unidos não se mostravam dispostos a participar da guerra para socorrer eficientemente a Inglaterra.

Winston Churchill resolveu resistir de qualquer maneira com a teimosia de um bull-dog. “Sangue, suor e lágrimas” foi a divisa da resistência da Inglaterra. E esta resistência Churchill a organizou de uma forma admirável. Graças a ela, que foi tomando corpo com o tempo, salvaram-se a Inglaterra e a Europa do domínio nazista.

O papel de Churchill, em nosso tempo, toma um caráter épico pela solidão da Inglaterra na luta contra Hitler. Uma solidão que daria elementos para despertar a consciência democrática do mundo diante do perigo mortal.

A história mostrou, mais uma vez, que o regime da força, da violência e do terror teria de ceder diante do ideal de ser livre. Mostrou também que, nos momentos em que tudo parece perdido diante da ameaça totalitária, há sempre uma reserva no fundo de todos os povos, um sentido de autodefesa que os conduz a lutarem desesperadamente e a alcançarem a vitória, evitando o retrocesso que custaria a própria liberdade.

Winston Churchill foi a peça decisiva num dado momento da história. Qualquer que seja a restrição que se possa fazer ao seu conservadorismo ideológico e político ninguém pode negar o papel admirável que ele desempenhou na luta contra a Alemanha e contra o fascismo.

Hitler nunca supôs que a Inglaterra, sozinha, resistisse como resistiu. Acreditava sinceramente num armistício que garantisse à Inglaterra o seu império colonial. Mas Churchill permaneceu inabalável no propósito de resistir. E resistiu para vencer.

Ele sabia que, após a guerra, seria inevitável a libertação das colônias. Mas isto era inevitável em decorrência da evolução econômica e histórica do mundo moderno. O essencial era derrotar o inimigo que ameaçava atravessar o mar da Mancha. O essencial era aniquilar o regime de que Hitler era o representante.

Após a vitória, o seu destino estava cumprido. Poderia retirar-se da cena, a fim de que outros homens, numa nova conjuntura da política mundial, realizassem a obra que a época exigia.



A morte de Churchill consterna a humanidade. Ele foi um homem acima das dimensões comuns. À beira de uma época de dúvidas e angustias projetou-se como um herói. E como herói provou que a defesa da democracia desperta uma bravura bem maior do que a inspirada pelos regimes em que o povo apenas segue a vontade de um chefe.









A lição de Churchill. Publicado pelo jornal "Diário Carioca" em 26 de janeiro de 1965.

Dizer que a morte de Winston Churchill consternou, profundamente, a opinião pública mundial, não é dizer tudo. Cumpre acrescentar que privou o Século XX do seu maior estadista, o grande apóstolo da Dignidade Humana — esse valor fundamental pelo qual o homem atinge sua realização absoluta.

Sem a posse da própria dignidade, que inclui a consciência da dignidade alheia, não há culto válido dos demais valores morais. Para Winston Churchill, a "batalha da Inglaterra", nos anos negros de 1940 e 41, não era um ato isolado de bravura nacional, era muito mais que isso: a demonstração, para a Europa subjugada, de que cada povo tem o dever, em nome da sua História e das gerações vindouras, de lutar pela liberdade até o último homem, de preservar sua dignidade até o limite máximo de resistência. Daí a transcendência das palavras de agosto de 1940, quando se cumpria a sinistra ameaça de Hitler, de escurecer os céus da Inglaterra com as esquadrilhas da Luftwaffe: "Defenderemos nossa ilha custe o que custar. Lutaremos nas encostas, nos pontos de desembarque, nos campos, nas ruas, nas colinas. Nunca nos renderemos. E ainda que esta ilha ou grande parte dela fosse dominada, o nosso Império continuaria a luta do outro lado do mar!"

Aquela voz enérgica, brotada das profundezas da indignação sagrada, ressoou em todos os aparelhos de rádio, onde quer que houvesse a esperança da vitória sobre a barbárie e o despotismo. Inflamaram de novo ânimo a têmpera dos soldados britânicos encurralados na Ilha; iluminaram, como que por ação sobrenatural, as feições daqueles que resistiam, heroicamente, nos esgotos e nas montanhas dos países subjugados: aqueceram os corações das mulheres sobressaltadas pela sorte dos maridos e filhos no "front". Já não era o estilo vitoriano do grande orador que se fazia ouvir por todo o Ocidente deflagrado, mas a linguagem direta em que a fé nos recursos mais nobres do espírito humano sabe se exprimir. Tão direta quanto aquele gesto de dois dedos em V, mais eloquente que os tropos da retórica.

Foi, ainda, o culto da dignidade humana que levou Churchill a repelir, na Conferência de Teerã, a proposta de Stálin, de após a vitória dos Aliados fuzilarem-se, sem julgamento, os criminosos de guerra nazistas. Replicou, secamente, o "premier", segundo testemunha Elliot Roosevelt, filho do presidente norte-americano. "Na minha opinião, nazi ou não, ninguém deve ser 'levado perante um pelotão de fuzilamento sem que antes tenham sido estudadas todas as provas e indícios de sua culpabilidade". Nuremberg, dois anos após, viria confirmar- lhe a tese.


Por estas e tantas outras atitudes, Sir Winston Leonard Spencer Churchill será lembrado, enquanto existir a raça humana.

Obituário: Princesa Isabel de Orleans e Bragança

outubro 08, 2017
Princesa Isabel de Orleans e Bragança


Pouco a pouco abalará o país, numa comoção espontânea, essa notícia que há momentos temos sob a vista - o falecimento, em Paris, da Princesa Isabel. Será um dia lúgubre e nenhum coração de brasileiro poderá deixar, neste dia, de se confranger com o acontecimento lutuoso. 

Temos, de certo, grandes homens e possuímos, mercê de Deus, alguns nomes raros capazes, pelo mérito que tem, de honrar a qualquer país, elevando a pátria com o brilho dos valores que traduzem. Mas entre todas as nossas grandezas, entre a coorte numerosa de nossos homens eminentes, destacava-se pela sua significação especial essa Princesa que o Destino acaba de derrubar, num de seus golpes inclementes. E tão alta e tão nobre era a sua grandeza que só de a podermos apontar nos vinha um orgulho legítimo.

De certo que outras gerações é que a haviam adorado. E o tempo passou com a sua pressa e as suas destruições e veio outra gente com uma outra alma, outra mentalidade e um desprezo completo pelo passado. Era a mocidade e esta ignorava a glória de Isabel, a Redentora. Felizmente, porém, das flores trancadas sobe o perfume que delicia e da santidade de Isabel acendeu até os nossos tempos a notícia de sua grandeza e foi esse um perfume que nos encantou e nos fez erguer a cabeça e sorrir, no orgulho de um nobre passado.

Muito se tem escrito da Abolição, mas ainda não se fez o trabalho necessário de divulgar amplamente os seus episódios e a sua significação. No dia em que toda a gente souber do que foi esse movimento, muito pessimismo virá por terra quando nos capacitarmos da existência demonstrada duma consciência nacional.

Que papel teve nele Pedro II? E a Princesa Isabel? Não nos cumpre nesse momento indagar. Basta dizer que a opinião pública despertou, agitou-se, formando-se em sociedades deliberadas que promoveram a campanha mais gloriosa de nossa história. E foi subindo a opinião pública de conquista em conquista, até o triunfo completo. A proibição do tráfico de negros, a lei do ventre livre e a libertação dos sexagenários foram vitórias parciais de uma campanha, etapas necessárias da marcha para a Abolição.

Cedeu logo o Imperador ou resistiu hostilizando o movimento? Não importa ainda sabê-lo, mesmo porque é impossível dizer qual devia ser, naquele momento, o papel de Pedro II, porque tão útil era concorrer para a abolição como resistir, desde que os embaraços serviriam para preparar o advento da lei. E se a Abolição não nos foi um grande desastre é porque a precedera o longo trabalho da preparação. 

Isabel ligara o seu nome a três etapas decisivas do abolicionismo. Ela que promulgara a lei do ventre livre, com o ministério Rio Branco; ela, ainda, que promulgara a lei de alforria dos sexagenários; ela, finalmente, que promulgara, a 13 de Maio, com o Gabinete João Alfredo, a definitiva Abolição da Escravatura. E por tudo isso lhe deram, com justiça, o nome de Isabel, a Redentora.

Meditemos um instante na significação desse título. Pensemos na tragédia da escravidão no horror das senzalas, nos suplícios contra o corpo e contra a alma, na abjeção do comércio nefando e vemos então que ter sido Redentora desse mal é uma auréola de santidade, um serviço tão grande que toda a vida prosternados diante de sua imagem não recompensaríamos bastante.

O seu benefício não foi somente o Brasil de ontem; também para o Brasil de hoje, pelas repercussões daqueles atos, ela é bem Isabel, a Redentora.

Porque escravidão não era apenas flagelo para uma raça, mas para todo o país. A mentalidade dos escravocratas era uma desgraça imensa para o Brasil com todos os seus prejuízos e todos os seus desmandos. A escravatura, no dizer de um dos nossos mais ilustres pensadores, era um cancro que devastava o organismo nacional. Curamo-lo, mas quantos traços conservamos do mal? Como não é horrível a sua cicatriz?

Curamo-lo, em todo o caso, e mais algum tempo desaparecerão os últimos vestígios do mal. Foi um passo incomparável de nossa história e saibamos prezar, por isso, a Soberana que ligou o seu nome às etapas dessa campanha. Saibamos honrar Isabel, a Redentora, cultuando-a carinhosamente, prestando-lhe as homenagens que lhe devemos.

Podemos ter, neste momento, uma satisfação: - é que a santa septuagenária pôde verificar, pouco antes de sua morte, que seu nome só inspirava, no Brasil republicano, uma carinhosa veneração.

Não serão outros os sentimentos que a notícia de sua morte acordará no coração dos brasileiros. E é de justiça que todo país, hoje, saiba cumprir o seu dever de gratidão para com essa Princesa magnânima que soube servir ao Brasil no maior de nossos acontecimentos e que no instante em que a morte a derrubou bem poderia ter resumido a sua vida como 75 anos de um amor imenso e desvelado pelo Brasil.

Seríamos péssimos patriotas se não soubéssemos ser gratos a Princesa generosa, à Princesa excelente, à Isabel, a Redentora, àquela que foi na sua existência uma constante irradiação de bondade.





A Princesa Isabel era filha do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz D. Thereza, Princesa das Duas Sicílias.

Nasceu no Rio de Janeiro a 29 de Julho de 1846 e recebeu os nomes de Isabel Cristina Leopoldina Agostinha Michaela Gabriella Raphaela Gonzaga de Bragança.

Casou-se nesta capital a 16 de Outubro de 1864 com o Príncipe Gastão de Orleans, Conde d’Eu.

Por duas vezes foi regente do Império e por duas vezes ligou o seu nome aos maiores fatos da nossa história político-social.

Foi ela que assinou a Lei de 28 de Setembro de 1871 e a lei Áurea de 13 de Maio de 1888.

Foi, incontestável, esse o maior dia de sua vida.

O projeto de lei, apresentado à Câmara, teve ali um curso muito rápido, indo logo para o Senado onde ainda mais rapidamente foi discutido e votado.

O Rio de Janeiro em peso aglomerava-se no campo de Santa Ana e, quando a redação da lei foi votada, das galerias choveram flores sobre os velhos senadores que estavam dominados pela emoção.

A Princesa Isabel viera de S. Cristóvão para o Paço da Cidade especialmente para firmar a Lei Áurea com uma caneta de ouro que José do Patrocínio adquirira por subscrição pública.

Ao assinar a lei a Princesa estava visivelmente emocionada. Não lhe era possível esconder o júbilo que lhe ia na alma. E, no entanto, ela sabia que assinando a lei que declarava que daquela data em diante não havia mais escravos no Brasil, assinava também, tacitamente a sua renúncia ao trono.

A campanha abolicionista fora rude. Os pioneiros dessa santa cruzada não pouparam esforços para alcançar o triunfo e para isso empregavam todas as armas. O trono foi muitas vezes alvejado pelos abolicionistas, mas naquela hora, grandiosa e solene todos os abolicionistas estavam ao lado do trono exalçando a Sereníssima Princesa que assim sacrificava um trono para libertar uma raça.

O Rio de Janeiro vibrou de entusiasmo durante quinze dias, tantos foram os que duraram as festas com que se comemorou o grandioso fato histórico.

As ruas da cidade engalanavam-se à porfia e nunca mais até hoje houve tão brilhantes ornamentações como as que então se fizeram.

A rua do Ouvidor era um verdadeiro buquê de flores e assim, as ruas dos Ourives, Uruguaiana, Quitanda e outras.

A Princesa foi a todas as festas, e por toda a parte o povo se apinhava em torno do coche imperial, saudando a excelsa senhora.

Houve quem por vezes lhe visse a bailar nos olhos lágrimas de emoção e de satisfação de dever cumprido.

Talvez que nessas horas de alegria uma nuvem lhe perpassasse pela mente, nuvem negra que se formava, tão negra como a raça que ela libertara.

Era formada pelos descontentes, pelos que viviam do trabalho escravo e que se sentiam prejudicados pela Lei Áurea.

O Papa, por essa ocasião, ofereceu à Princesa Isabel a Rosa de Ouro, alta e distinção raramente conferida por Sua Santidade.



A Princesa Isabel era querida do povo e sobretudo dos pobres que ela socorria, o mais das vezes ocultamente. No Palácio Guanabara davam-se mensalmente vultuosas esmolas que a imprensa não noticiava porque eram conservadas em segredo. Só os beneficiados pela mão da princesa é que a bendiziam e que nas suas orações não cansavam de pedir aos céus benesses e venturas para ela.

Mãe extremosa, educava os filhos com todo o carinho, dando-lhes bons mestres e obrigando-os ao estudo severo.

Dois grandes desgostos teve, quase no fim da vida, e quase seguidos. O primeiro com a morte de D. Antônio, durante a grande guerra, num desastre de aviação, e o segundo com a morte do Príncipe D. Luiz, em consequência de moléstia adquirida nas trincheiras onde ele se batera com heroísmo.

Ampararam-na nesses dolorosos transes os braços já trêmulos do seu velho companheiro de mais de meio século, o Conde d'Eu e seu filho D. Pedro, que não há muito  aqui vimos, admirando as belezas da sua pátria que ele deixara criança e que revia homem.

Desde então ficou-lhe o coração combalido e uma congestão pulmonar fê-lo deixar de pulsar, levando-lhe a vida tão preciosa e encerrando no livro de ouro da História a história da sua vida.

Por certo, o seu último pensamento foi para esta terra que a viu nascer, que ela amou tanto que não pode rever, mas onde, sem dúvida, dormirá o seu último sono, ao lado de seu pai o Magnânimo Imperador, e à sombra das verdes palmeiras e cercada pelas hortênsias de que ela tanto gostava, quando, nos verões de Petrópolis, passeava pelas longas avenidas que margeiam o Piabanha.

A morte cerrou-lhe os olhos para sempre, mas a Glória abriu-lhe de par em par as portas do seu templo!



A notícia da morte da princesa Isabel tivemo-la por intermédio da Exma. Sra. Baronesa de Loreto, que recebeu o seguinte telegrama do Conde d'Eu:

“PARIS, 14 (Às 9.15 horas) -  Baronesa de Loreto - Rio de Janeiro. -  Imerso na maior dor comunico queridíssima Princesa falecida de fraqueza cardíaca, agravada por congestão pulmonar. Rezem por nós. - (a.) Conde d’Eu.”



Até a última hora o Governo não havia recebido nenhuma comunicação oficial.







Obituário publicado pelo "Jornal do Brasil" em 15 de novembro de 1921.
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