O menino Valtêi

maio 22, 2017
menino Valtêi


Valtêi era um menino de dez anos diferente de todos os outros. Veio com sua família do sertão de Minas Gerais e hoje vive na favela do Escalvado, no Rio de Janeiro. Seu passatempo preferido é passear pelo centro da cidade, gosta do tumulto, gosta do barulho, de olhar as vitrines das lojas. Sobretudo gosta de estar longe de casa.


Quando tinha mais ou menos dois anos de nascido, o menino queria era judiar qualquer bicho que encontrasse pela frente? Uma vez seu João Passarinho, seu pai, indagou à Valtêi porque fazia aquilo com os bichinhos. O menino lhe respondeu prontamente, com a ingenuidade de quem acreditava que papai noel existia: "Eu gosto de matar".

Seu João Passarinho fez questão de espalhar a conversa para quem pode, claro que sempre acrescentava um tiquinho mais que era para a história ficar melhorzinha, além do mais tinha a memória tão fraca que nem devia se lembrar do que tinha acontecido de verdade.

Os pais de Valtêi sempre foram tidos pelos vizinhos como pessoas de bem. Dona Joaquina, a costureira da vizinhança, que os conhecia há mais de quarenta anos, dizia para quem quisesse ouvir que sempre foram boas pessoas. Que não havia nada para se queixar.

Mas o mesmo não dizia de Valtêi. Nem ela nem ninguém da vizinhança. Para eles Valtêi era ruim desde antes de nascer. A maioria dos vizinhos era de religião espírita e o Senhor Quelemém, que era o líder do Centro Espírita “Amor ao Próximo”, disse certa vez que o pobre menino só podia ser a reencarnação de uma pessoa muito cruel que merecia sofrer.

Dona Maria Cocó, uma médium muito respeitada na comunidade dizia do menino algo parecido. Acreditava que aquela alma vinha direto do breu para que, na pele de Valtêi, pagasse por suas perversidades passadas.

Numa manhã qualquer, como nas manhãs anteriores, e nas que ainda viriam, a senhora sua mãe mandou-lhe comprar pão e leite para o café da manhã. O menino, muito distraído, caminhava pela Praça da Estação, e já planejando para onde iria quando saísse da escola, encontrou Dona Crioula, uma moradora de rua, dormindo numa calçada, enrolada em jornais da semana retrasada e fedendo a álcool. O garoto quebrou uma garrafa que estava ali perto e foi cutucar a velha.

O vidro quebrado e pontiagudo cortou a idosa que foi parar no Hospital Souza Aguiar. A história circulou rapidamente na comunidade e fez com que os pais do moleque, que já sentiam vergonha pela quantidade de vezes que seu filho aprontava fazendo com que se tornassem alvo dos mexericos dos vizinhos, ficassem ainda mais irritados.

"Demos a ele um nome moderno para que ele se acertasse na vida, mas esse menino desde que se entendeu por gente só nos tem dado desgosto," lamentava seu Pedro. E às reclamações seguiam-se as surras que o menino tomava quando chegava em casa. Qualquer coisa era motivo para bater na criança, outro dia ficou todo roxo por conta da asa de uma xícara...

Havia uma única pessoa na vizinhança que tentava fazer algo por Valtêi. Era Dona Gerênia, presidente da Associação de Moradores da Favela do Escalvado. Ela achava que não se devia bater tanto numa criança e inclusive já tinha se metido numa briga feia com a mãe do menino. Ela dizia que os dois gostavam de bater nele, que se divertiam fazendo isso.


Seu Pedro Pindó e a esposa tentavam de tudo para corrigir o menino. Batiam no corpinho dele de chicote e depois limpavam o sangue da pele com salmoura. Amarravam o menino na árvore plantada no fundo da casa e o deixavam lá sem comer o dia todo. Mesmo no frio, deixavam o menino lá, coberto apenas pelas voltas da corda velha e suja.


Dona Mariquinha, zeladora do Centro Espírita, também tinha muita pena da criança, mas não tinha coragem de fazer nada. Tinha com ela que não devia se meter na educação que lhe davam, afinal não era sua mãe nem nada. Mas desconfiava que magro como estava, com os olhos fundos, carinha que só osso e aquela tosse feia ele não ia durar. Quando ouvia seus lamentos de longe ou via o pobre sofrendo amarrado na árvore ele até lhe parecia um bom menino.

Algumas perguntinhas

maio 22, 2017
empregado do coronel

Crônica de Aparecido Carmo

— Bom dia, eu sou de um instituto de pesquisas e gostaria de fazer umas perguntas.
— Que perguntas?
— Coisa pouca. Só para testar a memória do senhor sobre alguns assuntos.
— Minha memória?
— Isso! Eu posso começar?
— Poder pode, mas não sei se vou conseguir responder.
— Mas o que é isso?! São coisas muito simples!
— Sei...
— Vou começar: Em quem o senhor votou para vereador na última eleição?
— No filho do coronel Araújo.
— E para quem o senhor votou para prefeito na última eleição?
— No coronel Araújo.
— Viu só, eu disse para o senhor que era fácil.
— Já acabou? Eu tenho que voltar para a venda.
— Ah, o senhor é dono de uma venda?!
— Sou dono, não senhor. O dono é o coronel Araújo, sou só empregado.
— Ah, sim. Faltam algumas perguntinhas e já terminamos. Agora sobre a eleição do ano passado. Em quem o senhor votou para deputado federal?
— No sobrinho do coronel Araújo.
— E para senador?
— No afilhado do coronel Araújo, mas ele perdeu.
— Esse coronel tem uma família bem grande, não é mesmo?! Para terminar: em quem o senhor votou para presidente da República?
— Sabe que não lembro o nome do rapaz... Não é esse que ganhou não. Foi o que o coronel Araújo trouxe aqui.
— Não consegue se lembrar?
— Do nome eu não lembro, não senhor.
— Está tudo bem, já acabamos. Viu como não foi difícil?
— É. Até que não foi.
— Mas antes de o senhor ir embora, me tire uma dúvida.
— Pode mandar.
— Quem é esse coronel Araújo?
— Ah, o senhor não conhece?
— Não conheço. Eu não sou daqui, vim só para a pesquisa e todo mundo fala muito desse coronel.
— O coronel é dono disso tudo aqui.
— De tudo?
— Sim! Essa cidade era toda dele, um terreno imenso onde ele criava gado. Aí ele ficou sabendo que tinha um povo sem terra lá na beira do rio e resolveu ajudar a gente.
— Ah, ele dividiu essa terra entre vocês?
— Que isso! O coronel diz que dar acostuma à vadiagem. Ele vendeu e a gente comprou. Dividiu em trezentas, quatrocentas vezes.
— Tudo isso?
— Ah, mas o preço era bom. Muito melhor que o do banco.
— E faltam quantas parcelas para o senhor pagar?
— Mais de duzentas. Acho que meus filhos é que vão terminar por mim.
— E o senhor está conseguindo pagar em dia?
— Pior que não! A situação tá difícil, as coisas tão muito caras, quase não sobra dinheiro do salário.
— E o coronel, o que diz?
— Ah, o coronel pediu para eu pagar pelo menos os juros.
— E quanto são esses juros?
— Ah, varia de acordo com o mês.
— Como assim?
— Também não entendo. Tem alguma coisa com o dólar. Mês passado eu paguei quinze por cento, mas já teve mês deu pagar quase trinta.
— E não falta dinheiro?
— Às vezes. Mas quando a coisa aperta o coronel sempre ajuda, empresta dinheiro, vende comida fiado.
— Um santo esse coronel!
— Olha, moço, eu tenho que ir. Já passou da hora deu voltar pra venda e o coronel não gosta que a gente chegue atrasando. Ele desconta do nosso salário.

Como me tornei Jornalista

maio 22, 2017


Crônica de Jaqueline Braz

Conforme as gotas de chuva caiam com maior intensidade, o medo e a insegurança aumentavam dentro de não uma, nem duas pessoas, mas de todo um bairro. A chuva tinha cheiro de terra molhada, mas também tinha o aroma do medo que impregnava bem mais que qualquer outro cheiro.

Era um bairro de periferia mas que também poderia ser chamado de ilha. Era cercado por algo que um dia pode ter sido chamado de córrego mas que se tornou esgoto sem muito esforço. A cohab foi construída e recebeu como nome “Santa Clara” talvez devido a sua bondade, sua importância como fundadora da ordem feminina franciscana, ou simplesmente pelo voto de pobreza, ela foi lembrada por alguém que olhou aquele bairro e lembrou de Clara de Assis.

Apesar da sujeira e do cheiro o esgoto era palco de diversão para as crianças que corriam entre as valetas ou faziam competições de quem conseguia recolher mais garrafas pets e latinhas. A natureza como sempre se sobressaiu e como mesmo no lixão nasce flor, o esgoto tinha peixinhos que eram pegos pelas crianças e vendidos aos distraídos como peixe de aquário. Além dos amigáveis peixinhos, tinha as aranhas, enormes sapos e rãs, ratos, “baratões” e as cobras que iam desde as pequenas até as maiores que meus olhos já fitaram. No quintal da minha família apareceu uma enorme que foi capturada e morta pelos vizinhos. Foi churrasco a semana toda. China é fichinha.

O preço que minha família pagou na casa na época, hoje não daria para comprar um celular da maçãzinha. Muito pra quem não tinha nada e tão pouco para quem tem tudo.

Quando nasci em 1995 uma enorme enchente atingiu Cuiabá e Várzea Grande. Foram mais de oito mil desabrigados pelas chuvas. Em 1996 nos mudamos para Santa Clara.

Era 2001 e a lenda urbana sempre foi que de 5 em 5 anos uma enchente enorme atingia a região. Parecia que não ocorreria, já havia passado os cinco anos. Mas as intempéries sempre foram presentes na vida de quem não tinha sorte.

Começou a chover e não parou mais. Não foi preciso dias para que tudo se tornasse um verdadeiro caos. O bairro todo alagou, famílias inteiras com água até a cintura, subindo os móveis o máximo possível na tentativa de salvar o que já não fora destruído. Para diversas famílias essa não era a 1a° vez. Elas já haviam sentido o desespero de não poder fazer nada ao ver com a água, a esperança se esvair.

De maneira improvável e superando a iminência da enchente que o esgoto cada minuto mais cheio atrás de casa mostrava, nossa casa não encheu. Novamente, estávamos numa ilha. A única casa que não havia entrado água e ninguém sabia dizer o porquê. Isso não diminuía o medo e o sofrimento, pelo contrário, só aumentava ao ver todos os vizinhos e amigos em desespero. Meus pais foram ajudar aos vizinhos e fiquei na área em frente de casa revoltada, no alto dos meus seis anos de idade, em como apesar dos nossos esforços, nada mudava. O pior, ninguém ajudava. Não tinha bombeiro, polícia, defesa civil, nenhum órgão público responsável dava sinal de ajuda.

Naquele momento o que eu mais desejei foi ser jornalista. Eu queria mostrar para todo mundo como aquelas pessoas sofriam, queria dar a elas a oportunidade de serem ouvidas, vistas, ajudadas. Alguém precisava ser porta-voz dessa gente esquecida. Talvez minha prece tenha sido tão forte que foi ouvida por Santa Clara, padroeira da televisão. 15 anos depois estou na aula de linguagem de vídeo, na faculdade de jornalismo da UFMT, ouvindo meu professor contar quando uma jornalista amiga dele foi responsável pela cobertura das enchentes de 2001.


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