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8/A Vida Intelectual/custom

Dezesseis Preceitos para Adquirir o Tesouro da Ciência por São Tomás de Aquino

dezembro 28, 2018





Por que me pedistes João, irmão caríssimo em Cristo, o que seria necessário estudar, para adquirir o tesouro da ciência, pareceu-me oportuno dar-te tais conselhos:

1. Que elejas, pois, introduzir-te, primeiramente, nas águas dos rios que nas do mar, pois deves eleger começar, a partir das coisas mais fáceis e não das mais difíceis. Portanto, esta é a minha advertência e a tua instrução;

2. Que não te apresses em julgar, nem em pronunciar-te sobre algo;

3. Que estimes a pureza de consciência;

4. Que não deixes de ocupar-te da oração.

5. Que ames frequentar tua cela, se queres ser conduzido à adega do vinho da sabedoria;

6. Que sejas amável com todos;

7. Que não perguntes excessivamente nada sobre as obras alheias;

8. Que não te mostres excessivamente familiar a ninguém, pois a excessiva familiaridade produz o desprezo e a subtração do tempo necessário ao estudo;

9. Que não te intrometas, de nenhuma maneira, em discussões e acontecimentos profanos;

10. Que evites, deste modo, a discussão sobre qualquer assunto;

11. Que não deixes de imitar os exemplos dos santos e dos bons;

12. Que não atentes a quem disse, mas ao que de bom se diga, guardando-o na memória;

13. Que procures entender o que lês de ouves;

14. Que te certifiques das dúvidas;

15. Que te esforces por abastecer o depósito de tua mente, como o ávido que se atira a saciar-se;

16. Que não questiones as coisas que estejam além de teu alcance.

Se tu seguires estes conselhos, poderás gerar frondosas folhas e frutos na vinha dos exércitos do Senhor. E enquanto tu viveres, produzirás e proliferarás. Se tu o seguires, pois poderás atingir aquilo a que aspiras.

#01 - A Vocação Intelectual

dezembro 27, 2018

O livro "A Vida Intelectual" de Antonin Sertillanges é destinado “àqueles que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida”. A intenção do autor fica explícita já nas primeiras linhas do livro: ajudar e orientar o leitor num “profundo desenvolvimento do espírito”, na medida em que isso é possível por meio de uma obra escrita como essa que já se tornou um clássico introdutório da filosofia tomista.
O autor faz questão de indicar já nos primeiros parágrafos a que tipo de estudante ele quer auxiliar: aquele que tem vocação e tem ciência que o seu amadurecimento intelectual não acontecerá sem esforço, dedicação e organização. Uma vocação intelectual, diz Sertillanges, não se satisfaz de modo algum com leituras soltas e trabalhinhos esparsos.
O estudante que toma por guia o pensador francês não é iludido com promessas de reconhecimento e riquezas. Ao contrário, desde o princípio aprende o seu devido lugar: é um escravo da verdade. Apenas se colocando dessa maneira diante do oceano do conhecimento poderá verdadeiramente crescer enquanto “atleta da inteligência”.
A vida do vocacionado é cheia de obrigações, impõe muitas privações. É uma vida que exige austeridade, longos treinos e uma entrega sincera. Esse esforço, contudo, não é em vão. Na mesma medida da sinceridade de seu interesse alcançará as verdades eternas, imutáveis. Talvez até obtenha a graça de conhecer a Deus.
A genialidade não é uma característica tão indispensável quanto a vontade, essa sim determinante para o sucesso nesta caminhada. Ao contrário, o orgulho e a soberba dos gênios podem se tornar escamas diante de seus olhos e torná-los cegos para a realidade que o cerca.
Imagine um estudante verdadeiramente engajado em alcançar essas tais verdades. Um rapaz interiorano no Brasil do século XVIII, isolado, privado de recursos intelectuais e de convívios estimulantes, condenado a apodrecer em algum fim de mundo, longe das ricas bibliotecas, das aulas brilhantes, possuindo apenas a si mesmo. Imagine esta situação e agradeça aos céus por ter à sua disposição, à distância de alguns cliques, mais informação do que a maior parte dos grandes pensadores jamais sonhou em ter.
O que talvez lhe falte seja organização e senso de discernimento para o que realmente é elementar. O que vale acima de tudo, ensina Sertillanges, é o querer, um querer profundo: querer ser alguém; chegar à alguma coisa.
Tem duas horas por dia? Ou, como propõem alguns estudantes reunidos no grupo “Contra os Acadêmicos”, é capaz de ler trinta páginas por dia? Pode se comprometer nesse esforço mínimo afim de estabelecer em seu cotidiano o costume de reservar um certo espaço do seu dia para as coisas maiores?
Se a resposta for sim e se perseverar os resultados não tardarão, mesmo que aos poucos já que o conhecimento nunca pode ser acessado de uma única vez -  Santo Tomás já alertava que deve-se buscar os riachos e esperar que eles o levem às águas profundas dos mares.
[...] O senhor também, um dia, se Deus quiser, encontrará um lugar na assembleia dos nobres espíritos”.

O intelectual é um consagrado à verdade. Não pode, sob hipótese alguma, deixar-se tentar pelos fantasmas do individualismo – que para Sertillanges é essencialmente inumano.
É impossível afastar-se completamente dos outros indivíduos por qualquer razão que seja e não passar a ter sua leitura da realidade viciada, mutilada. O intelectual é, em primeiro lugar, um homem. Por isso mesmo não deveria nem tentar afastar ou questionar as subjetividades que compõem e/ou influenciam seu trabalho - tais como os sentimentos, necessidades, virtudes e pecados, contexto social e histórico, etc.
Toda verdade é prática, alerta o autor. O intelectual deve trabalhar num “espírito de utilização”, devem estar sempre dispostos a ajudarem as pessoas ao seu redor e identificar aqueles que podem ser salvos da ignorância e da perdição.
“Não há tantas verdades que não sejam as verdades redentoras, e não seria em vista de nosso trabalho como de tudo o mais que o Apóstolo disse: ‘a vontade de Deus é que sejais santos’?”
Sertillanges se preocupa, ainda, em colocar o estudante em seu devido lugar histórico. Temos um compromisso com o nosso tempo da mesma maneira que temos com os nossos contemporâneos. Neste ponto, o autor compartilha conosco no contexto em que estava inserido enquanto escrevia sua obra. É, de fato, uma situação terrível e angustiante - o tipo de época que forja heróis e santos:
Eis-me, homem do século 20, contemporâneo de um drama permanente, testemunha de transtornos como talvez nunca o globo havia visto desde que surgiram os montes e que os mares foram perseguidos para dentro de seus antros. O que devo fazer por esse século resfolegante? Mais do que nunca o pensamento aguarda os homens e os homens o pensamento. O mundo está em perigo por falta de máximas de vida. Estamos num trem propelido a toda velocidade, sem nenhuma sinalização à vista, nenhum agulheiro. O planeta não sabe para onde está indo, sua lei o largou: quem vai lhe restituir o sol?
Sertillanges não restringe o desenvolvimento intelectual à religião, pensamento comum à certos puritanos recém-chegados (também conhecidos como pão-com-ovo). Todo o conhecimento, para o autor, tem utilidade prática. Sertillanges também descarta o que chama de “tendência ideológica”, um amor cego pelo passado em detrimento do presente (típico dos chamados rad trads), ignorando a onipresença e onipotência de Deus.
Não vamos nos assemelhar àqueles que dão sempre impressão de estar carregando os cordões do pano portuário dos funerais de antigamente. Utilizemos o valor dos mortos para viver. A verdade é sempre nova. Como a relva da manhã recoberta de um delicado orvalho, todas as virtudes antigas tem vontade de reflorescer. Deus não envelhece. É preciso ajudar esse Deus a renovar não os passados sepultados e as crônicas extintas, mas a face eterna da terra.
Para o filósofo francês, o espírito do intelectual cristão está diretamente atrelado à sua vocação verdadeira. Por tanto, quanto mais cedo conseguir definir aquilo que verdadeiramente lhe suscita o ânimo pelo estudo, melhor serão os resultados obtidos e mais rapidamente seu espírito se desenvolverá, fará a transição de um estado inferior para um estado superior.

Obituário: Duque de Caxias

julho 30, 2018


Faleceu ontem às 8h30 da noite, na fazenda de Santa Mônica, no Desengano, o Duque de Caxias (Luiz Alves de Lima e Silva), marechal efetivo do exército,ajudante de campo de Sua Majestade o Imperador, conselheiro de Estado e de guerra, e senador pela província do Rio Grande do Sul.

Nasceu em 25 de agosto de 1803. Foi reconhecido cadete aos 5 anos de idade, cursando com brilho a Real Academia Militar. 

Em 1823, sendo tenente,  foi fazer a campanha da Bahia. Dessa data em diante a sua espada esteve sempre ao serviço da nação, que defendeu com entranhado amor e extraordinária bravura.

Os seus últimos serviços militares foram prestados na guerra do Paraguai, onde até a sua retirada, com sacrifício da sua já comprometida saúde, deixou o seu nome ligado a todos os combates que tanta glória deram ao Brasil.

A vida do grande cidadão que acaba de falecer é, como diz um de seus biógrafos, uma página brilhante da nossa história.

Mais como militar do que em outro caráter, deve  ele ser considerado.

Entretanto o Duque de Caxias teve papel saliente na polícia do império.

Repetidas vezes foi ministro de Estado e presidente do conselho.

Respeitado e considerado pelos próprios adversários, a quem a paixão política não desvairava, exerceu sempre uma grande influência no partido conservador, do qual era uma das primeiras glórias.

A biografia do eminente cidadão não cabe nos estreitos limites desta notícia, escrita sobre dolorosa impressão do momento.

Mais do que podíamos dizer, di-lo-á o país no profundo sentimento de pesar com que há de receber a fatal nova.

Ao passo que o chão da pátria recebe um cadáver, a história arquiva para não mais riscá-lo um nome ilustre que se desdobra glorioso sobre dois reinados, através de batalhas temerosas e pacificações humanitárias.  

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Pelos relevantes serviços prestados ao país o finado teve as seguintes condecorações: Grã-Cruz das Ordens: Imperial do Cruzeiro, efetivo da Rosa, de Pedro I e de S. Bento de Aviz; com a medalha oval da Independência (da Bahia), com o passador de ouro; com a medalha commemorativa do rendimento da divisão do exército do Paraguai, que acampava na vila de Uruguaiana; com a medalha do exército no Estado Oriental do Uruguai, em 1832; com a medalha de mérito “a bravura militar”; com a medalha concedida ao exército, a armada e aos empregados civis em operações na guerra do Paraguai, com passador de ouro; com a grã-cruz da Ordem de N. S. da Conceição de Villa Viçosa; primeiro barão, primeiro conde e primeiro marquês de Caxias.

***

Às 9 horas da manhã partirá um trem especial da estação central da estrada de ferro de Pedro II, com destino à estação do Desengano, a fim de conduzir o cadáver para a rua do Conde de Bonfim, nº 18, no Andarahy.

O saimento se realizará às  horas da tarde, dali para o cemitério de S. Francisco de Paula.

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 O testamento foi feito no dia em que o ilustre finado completou 70 anos de idade, sendo entregue ao Exm. Sr. visconde de Tocantins.



Gazeta de Notícias - Sábado, 8 de maio de 1880.

Decadência

julho 18, 2018



Uma palavra percorre as ruas, enche os jornais, perturba os gabinetes de estudo: Decadência. Decadência com maiúscula, Decadência, a Deusa funesta que reina sobre o momento. Uns proclamam a Decadência para provar a sua própria vitalidade superior. Outros murmuram este nome para explicar a queda das suas ilusões. Todos estão de acordo sobre esta fatalidade inexorável dos povos.

Franz Kafka e o mundo invisível

julho 11, 2018
Pintura "São Pedro escrevendo suas epístolas" de Valentin de Boulogne


O mundo do “conteur” Franz Kafka é uma casa burguesa, solidamente construída na aparência, com uma fachada um pouco descuidada. Entramos e respiramos o ar das penúrias dolorosas, de quartos mal ventilados. Apodera-se de nós o sentimento do que já foi visto. A escada range. O seu quarto é uma loja de recordações. Um canto guarda os brinquedos esquecidos. Recordações, recordações. Os mortos surgem. Os fantasmas que apavoravam a criança. Figuras de demônios. Um labirinto. Delírio. Fuga. Nenhuma abertura. Voltamo-nos para o outro lado: aparece a face de Deus.
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