Decadência




Uma palavra percorre as ruas, enche os jornais, perturba os gabinetes de estudo: Decadência. Decadência com maiúscula, Decadência, a Deusa funesta que reina sobre o momento. Uns proclamam a Decadência para provar a sua própria vitalidade superior. Outros murmuram este nome para explicar a queda das suas ilusões. Todos estão de acordo sobre esta fatalidade inexorável dos povos.

Mas que é Decadência? De que maneira ou de que maneiras um povo é suscetível de cair em Decadência? Política, econômica, cultural ou moralmente? Logo surge a primeira dificuldade. Pois as grandes épocas do poder político, da riqueza econômica, da elevação moral de um povo não coincidem necessariamente. Ao contrário.

Vejamos a economia. Não existem épocas florescentes sem uma sólida base material. É uma evidência. Os Países-Baixos, grande potência do século XVII, era um país riquíssimo; mas a Holanda do século XX é infinitamente mais rica, o que não exclui uma completa fraqueza política. A Alemanha pobre de antigamente torna-se em 1870 uma grande potência militar industrial; mas daí em diante a civilização humanista de Weimar vai desaparecendo e tornar-se-á dispensável mencionar as suas transformações morais. Enfim, Portugal, o grande Portugal das descobertas e de Camões, era verdadeiramente um país rico? Estudos recentes permitem que duvidemos. Sobretudo, é preciso positivar, se a decadência econômica consiste no empobrecimento da classe dirigente ou na má distribuição das riquezas; e sob o segundo ponto de vista dificilmente um povo qualquer escaparia de ser julgado decadente.

Dir-se-á, porém: “o poderio político ou econômico pouco nos interessa…”

Será verdade? Não são as catástrofes políticas, as debacles militares que provocam sua fórmula decadentista? Dir-se-á ainda: “é somente pelos valores espirituais que os povos sobrevivem”. Sem dúvida. Onde estão, porém, os juízes infalíveis para o julgamento da decadência desses valores? São muito conhecidos aqueles a quem devemos esta noção de “períodos decadentes”; são os senhores historiadores da literatura e das artes, gênero mestre-escola. É desanimador que um julgamento tão difícil seja confiado a filólogos pedantes e a vulgarizadores superficiais. No meu velho dicionário, “gótico” e “barroco” são sinônimos de “antediluviano” e de “bizarro”.

Durante séculos eles obscureceram a grandeza de um Góngora; decadência da poesia espanhola! Foram necessários os trabalhos extraordinários de um Croce, de um Cossio, de um Burdach, de uma legião de outros para que fossem reconhecidos os valores literários e artísticos do barroco, trancados durante séculos na prisão “Época de Decadência”, enquanto que se adoravam os “clássicos”, que, geralmente, não passavam de espantalhos e de enjoativos bustos de gesso. Foi preciso arrancar à decadência dos imbecis todas as catedrais góticas, um Shakespeare e um Johann Sebastian Bach, um Miguel ngelo e um Greco, toda magnífica poesia inglesa do século XVII, até os poetas simbolistas, até os pintores impressionistas; tudo o que não agrada aos mestres-escola e aos pequenos burgueses. Verdadeiramente, toda a história das letras e das artes é uma história de ressurreições do túmulo “Época de Decadência”. E se há uma Decadência, não é a dos criadores e sim a Decadência dos julgadores.

Por fim, a moral. É evidente a sua decadência; sobretudo para os velhos homens e mais ainda para as velhas mulheres que deploram, há vinte e sete séculos, a corrupção da nova geração. Essa longa experiência abriu-lhes os olhos. “Mesmo as virtudes dos romanos não passam de vícios brilhantes”, e é certa a decadência moral de certos povos. Mas quem é que é decadente? Certos homens, certos grupos, certas classes? Todo um povo? É afirmar demais. Quanta gente decadente é necessário para declarar-se decadente todo um povo? A minoria dirigente? Ou a maioria? Ou ainda uma maioria esmagadora? Existirá uma decadência constatada pelo sufrágio universal? Teremos depois da decadência da democracia, uma democracia da decadência? Mais uma vez: quantos “decadentes” são necessários para explicar a queda de um povo? Certamente tais condenações não convém, a nós, os homens. Se houvesse dez justos, cinco justos, um só justo em Sodoma… Não se deve generalizar, Deus será misericordioso mesmo assim. Deixemos as generalizações insolentes a um homem, de nenhuma maneira decadente, para quem a Providência a instrumento cotidiano. A causa não é da competência dos nossos tribunais; ela só será julgada perante o Fórum de Deus.



*



Mas os sectários da deusa Decadência são obstinados. Há não sei quanto tempo debatem o problema da “decadência ibérica”, e as suas cabeças e os seus livros estão cheios de fantasmas: a Inquisição, a intolerância católica, a expulsão dos judeus, a inflação do ouro, a preguiça aristocrática, a degenerescência das dinastias. Só um elemento lhes escapa; a fragilidade de suas filosofias. Eles continuam obstinados.

Isto é o resultado da grande e inesquecível experiência que persegue a humanidade como um pesadelo: o fim do mundo antigo, a queda de Roma.
A queda de Roma criou um grande diálogo através dos séculos. Queria-se conjurar o fantasma de uma volta a essa catástrofe; queria-se reconhecer o mistério de Deus na história.

Esse diálogo começa no terrível ano de 410, quando Roma cai nas mãos dos bárbaros. Então os pagãos denunciam os cristãos: abandonastes os deuses, eles se vingaram. Agostinho se encarrega da defesa que transforma em acusação: “Os vícios dos Romanos vingaram o Universo subjugado; e mesmo as suas virtudes não passam de vícios brilhantes”. Deus os puniu.

Em seguida o diálogo não tem mais fim. Vai da poesia melancólica das ruínas, através das declamações dos retóricos e dos sermões dos moralistas, até a “Queda do Ocidente” de Oswaldo Spengler, poema histórico-filosófico em dois volumes.

O enigma se desdobra em considerações de ordem filosófica. Duas concepções opostas da história, nele se misturam: a concepção cíclica que contém a noção de decadência e de renascimentos sucessivos; e de outro lado, a concepção “progressista” que admite uma só evolução histórica, em linha reta, até o fim.

A noção cíclica descende de Políbio. O grande historiador grego, admirando a grandeza dos Romanos, tenta explicar a decadência do seu infeliz povo, pelas corrupções políticas. Cria um “ciclo das constituições”, desde a democracia corrompida até a tirania demagógica. Assim era o destino dos gregos; será também o destino dos Romanos? Não nos parece que os Romanos semi-bárbaros daqueles tempos tivessem escutado os avisos de Políbio; ninguém gosta de ser obrigado a pensar na morte. Porém, mais tarde, eles seguiram o caminho traçado. Sêneca e Tácito deploram um mundo envelhecido. Marco Aurélio, ao morrer sobre a fronteira dos bárbaros, prevê o fim. A noção de de ciclo histórico domina os últimos filósofos da antiguidade, os Estóicos.

É Agostinho quem primeiro reconhece a incompatibilidade desta filosofia da história com o Cristianismo. Ele substitui a lei natural do nascimento e da morte dos povos pelo julgamento moral. Os Romanos venceram pela suas virtudes e caíram pelos seus vícios. Mas era a vontade de Deus. A única razão de ser do Império Romano era de preparar o caminho para vitória da Igreja. As “decadências” recebem de um golpe uma interpretação “soi-di-sant” otimista que a filosofia cristã não mais abandonará. Na verdade, a doutrina cristã só admite o progresso para um fim e para o cristão só existe uma decadência, a decadência definitiva: o Apocalipse.

Com isto Agostinho refutou as acusações dos últimos pagãos: a queda do Império era da vontade de Deus e foi um passo necessário para a “Civitas Dei” e para a beatitude eterna. A noção de decadência está afastada.

Este otimismo cristão aumentará. Depois de Leão I ver-se-á nos Papas os herdeiros legítimos dos imperadores. A “Civitas Deis” desce do céu sobre a terra: a Igreja é o novo Império, indestrutível até a chegada do Anti-Cristo. No ano 1000 pregaram-se para esse fim do mundo; mas espera-se esse fim, não mais de um decadência, porém da “plenitude dos tempos”.

A noção de “decadência” é essencialmente cristã quase anticristã. É esta a razão pela qual reaparece no fim da Idade Média, no espírito dos humanistas.

Petrarca é o primeiro “homem moderno”. O primeiro a cantar individualmente, o primeiro a admirar as belezas da natureza do alto de uma montanha. O primeiro, para qual o mundo antigo não é mais o precursor imperfeito da cristandade, mas um ideal. Queria revivificá-lo, fazê-lo “renascer”. Haverá, portanto, “Renascimentos”. E a Idade Média não tardará a ser transformada em período intermediário de decadência. Reaparece a interpretação cíclica da história.

As especulações sobre as relações entre decadência e constituição política recomeçam. O republicano florentino Leonardo Bruni acusa os imperadores romanos de terem corrompido o povo. E o último dos republicanos florentinos, Maquiavel, renova os ciclos de Políbio. O republicanismo degenera em teoria do absolutismo. O senador veneziano Paolo Paruta denuncia a democracia como responsável pela decadência; haverá uma decadência inumerável de anti-democratas “cíclicos”: até Georges Sorel, até Wilfredo Pareto. Nesse intervalo, a história perdeu o seu sentido religioso. Não se vê mais nela o dedo de Deus. Desejam-se leis da história, comparáveis às leis da natureza, de um Galileu e de um Newton. Começa-se a conjectura sobre as causas da “Grandeza e Decadência dos Romanos”.

Surgem duas direções: uma espiritualista, outra materialista. Uma explica as decadências por uma lei histórica, inata à humanidade; a outra explica as decadências por leis naturais e institucionais.

A pátria da primeira teoria é a Itália, o que se explica facilmente. A Itália dos séculos XVII e XVIII é uma Itália decaída. A comparação com a antiga Roma impõe-se. Como era possível? Os poetas patrióticos, em Filicaja por exemplo, não se elevam sobre a declamação. Mas o espírito profundo do napolitano Giambattista Vico atinge, pelo pensamento, à mais sublime poesia. “Scienza Nuova” é talvez o maior romance histórico da literatura universal: cada povo evolui da barbárie vigorosa até o refinamento decadente, para desaparecer, afinal, e ceder lugar aos novos bárbaros. Esquecido durante muito tempo, redescoberto por Benedetto Croce, Vico vê-se plagiado por Georges Sorel e Oswald Spengler, que aplaudem os novos bárbaros, proletários ou fascistas. Em volta do seu monumento, no Parque Municipal de Napoles, os pequenos napolitanos brincam inocentemente, longe de suspeitarem que se tornariam os novos bárbaros, destinados a estrangular a decadência francesa.

A França é a pátria da segunda teoria. Em famosos trechos da “Grandeza e Decadência dos Romanos”, Montesquieu é o primeiro a estudar as influências da região, do clima, e da raça sobre o destino dos povos. Por isto ele é o pai de todas essas especulações utilitaristas, positivistas e naturalistas que nós conheceremos depois demasiado bem. Mas Montesquieu é mais profundo que os seus sucessores e, sobretudo, mais emocionado. A ruína da França no auge da sua glória, sob o reinado de Luís XIV, comoveu o filósofo. Diz Roma e quer dizer França, baseando a decadência dos países sobre as suas conquistas e aumentos que tornam impossíveis as constituições moderadas e levam ao despotismo. Rousseau o sucederá. Depois a França tornou-se o objeto preferido de todos os teóricos da decadência, até este dia infeliz.

A teoria espiritualista atinge o seu apogeu com Hegel, filósofo oficial da Prússia: a sua filosofia da história é um teatro onde cada povo, chamado por Deus, entra em cena como um ator “à sa réplique”, para representar o seu papel histórico e desaparecer em seguida definitivamente. Depois, foi a vez da Prússia de estrear no palco e muitos outros atores desapareceram.

A segunda teoria atinge seu apogeu com Nietzsche, gênio herostata, que denuncia a decadência dos instintos, suprimidos pelo cristianismo; a decadência retorna às suas origens pagãs, para submergir na loucura.

Depois a biologia arbitrária fará notáveis progressos, para acabar na decadência dos povos pela força superior dos tanques e dos aviões, pregada pelo ariano Rosenberg.

Observem a palavra melancólica de Vauvenargues: “Os grandes homens ensinaram os imbecis a pensar para colocá-los no caminho do erro”.

Essa catástrofe intelectual era inevitável. Não podia deixar de vir, já se quis basear uma lei da ciência sobre uma só experiência, sobre este o único exemplo da queda de Roma; o que é impossível de defender e arruína toda hipótese; hipótese, além disso, que submete o espírito e a história às leis da biologia.

Estamos diante de uma hipótese, meditada, refutada, provada e mais uma vez refutada, desde há séculos, indestrutível como todos os pessimismo e otimismos que da mesma maneira não se saberia nunca como provar ou refutar. A questão, mal apresentada, nunca seria resolvida.

Mas o espírito fica. Vive em transformação perpétua e quando estas transformações tornam-se mais manifestas, mais dolorosas que de ordinário, grita-se: Decadência, Fim. Mas essas transformações são também uma condição indispensável à vida: onde não existem, aí está a morte.





Tradução de C. G. Lima Cavalcanti.
Correio da Manhã (RJ), 4 de maio de 1941.

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