Um novo companheiro

Dessa forma, os leitores do "Correio da Manhã" foram apresentados à Otto Maria Carpeux.


Pintura Amigos de Hanna Pauli


No dia 16 de Março de 1938 um escritor austríaco deixava sua pátria, cinco dias depois da invasão nazista. Mais um episódio de exílio começava neste longo interminável martírio da inteligência sobre a terra. É verdade que este escritor, austríaco de nascimento, ampliara, pelo espírito, a sua pátria: tornara-se um escritor europeu e universal. O exílio, contudo, também ampliara os seus círculos morais: tornara-se um fenômeno de todos os homens em todas as terras. O escritor que abandonou o seu país, numa fuga perigosa e cheia de aventuras, continua, assim, em exílio, apesar da universalidade do seu espírito. Ele próprio escrevera mais tarde: “Tout le monde est en exil. Ce ne son point les émigrés, eux seuls, qui s’evadent. C’est toute l’Europe, et, blentôt plus que l’Europe. Toute l’humanité a plié ses tentes pour se mettre em route”.

O seu caminho do exílio foi longo: Itália, Suíça, Bélgica. Depois, por uma intervenção do Papa Pio XII, o Brasil. Em setembro de 1939, entrava em nossas fronteiras. Dois meses, no Rio; um ano, em São Paulo; agora, a volta ao Rio, com o projeto desdobrar o seu caminho de exílio. Uma iniciativa do Correio da Manhã, porém, fez paralisar, ao menos momentaneamente, este projeto.

O escritor austríaco a que estou me referindo, começará a escrever, neste jornal sob o pseudônimo de Otto Maria Carpeux. Porque conheço este escritor — sou talvez o único dos seus colegas brasileiros a conhecê-lo de perto — estou certo que a sua atuação, na nossa vida literária, vai constituir um acontecimento de excepcional significação. Tenho, diante de mim, as cartas que me escreveu de São Paulo, um caderno de notas pessoais, os seus primeiros artigos para o Correio. Todos estes documentos revelam, ao mesmo tempo, um homem e um escritor; um homem, moralmente muito forte, em harmonia com o escritor, intelectualmente muito poderoso.

O pseudônimo contém, ele mesmo, uma dupla revelação. Mesmo na Europa, Carpeaux nunca utilizou seu nome pessoal para os seus artigos e os seus livros. Esta deliberação é uma consequência do seu propósito de jamais confundir uma vida particular de pequeno burguês com uma vida pública de escritor combativo e inconformista. Um propósito de escritor — outrora mais comum, hoje muito raro — que se une com o seu desinteresse em face de sucessos exteriores, com a sua desambição pessoal, com a sua capacidade de se despersonalizar dentro das suas ideias. Sugerindo uma certa ordem de estudos que desejava fazer com o sr. Gilberto Freyre, escrevia em uma de suas cartas: “Veuillez-vous y entendre, je le répéte, avec M. Gilberto Freyre. Puis, mon ambition, très desinteressé, me fait songer: une novelle école de Recife qui utilise l’héritage européenne au profit de l’esprit d’un monde nouveau. Quant à moi, il me satisfera, quand on m’appelera, un jour, un bon camarade.” É que para Otto Maria Carpeaux, a obra só conta, em si mesma, desligada dos seus atributos acidentais. O seu conceito de arte se firma sobre esta proposição: uma obra intelectual é a transformação da personalidade em obra realizada; e a obra será tanto mais pura e perfeita quanto mais completa for a transformação. Inteiramente completa, porém, nunca o será porque então o homem substituiria Deus. A luta por esta transformação completa constitui, no entanto, o destino trágico de todo escritor e de todo artista. Otto Maria Carpeaux conhece o sentido desta luta. O uso do pseudônimo — ele desejaria, com certeza, não usar nome nenhum — é um indício deste conhecimento. O seu ideal é a sua despersonalização na sua obra.

Precisando utilizar um pseudônimo, escolheu um nome francês e não um nome alemão. Por que? Certamente que não se trata de prevenção ou de ódio contra a Alemanha. Ninguém iria confundir, numa mesma condenação, a inteligência alemã que criou Weimar e o prussianismo político do estado alemão que criou Hitler. A escolha deste nome francês, no entanto, se torna explicável por intermédio da formação intelectual do escritor e da formação histórica da sua pátria. O caso pessoal de Otto Maria Carpeaux não é propriamente de cosmopolitismo, mas de universalismo. Os fundamentos da sua vida e da sua cultura são os da Igreja; e um homem católico há de ser, antes de tudo, um espírito ecumênico. Por outro lado, ao contrário do que se pode pensar, a Áustria tem um caráter universalista muito propício para excitar o universalismo deste seu escritor. É um país católico. É um país de influências latinas muito profundas. É um país que sentiu, no seu solo, o encontro de três raças e de três povos. A Áustria representa um corpo nacional muito mais complexo que o da Alemanha. E aqueles, como Carpeaux, que permanecem fiéis à causa da sua independência, não poderiam esquecer os fundamentos desta complexidade. Embora de civilização germânica, a Áustria é uma nação muito latinizada, sobretudo pela Igreja Romana, por uma dinastia de origem espanhola e borgonhesa, pelas suas ligações seculares com a Itália. A seu respeito poder-se-ia falar de uma “Germânia latinizada”. Não devemos esquecer também que, na história do continente europeu, Viena significa o ponto de encontro de três mundos diversos: o mundo germânico, o mundo eslavo e o mundo latino. Por isso a pátria de um austríaco é a Europa, toda a Europa; e Otto Maria Carpeaux é um europeu que sempre foi acolhido na França, na Bélgica, na Holanda, na Itália, como na sua própria casa. Entre os seus mestres estão Max Weber, Benedetto Croce e Alain. Entre os seus amigos estão André Gide, Robert Conte d’Harcourt, os jesuítas P. P. Bichlmaier e Gundlach (este último, um famoso professor de sociologia da Universidade Papal de Roma).

Ao lado dos cursos universitários — doutorado em filosofia, letras e ciências matemáticas e, depois, um outro numa Escola de Sociologia e Política — todos os estudos de Otto Maria Carpeaux se realizaram dentro de um critério absolutamente universal. A sua especialização se orientou no sentido da literatura comparada, para a qual levou o seu conhecimento de oito línguas vivas e mortas, inclusive, hoje, da portuguesa. Escreve, com a mesma naturalidade, em alemão, em holandês ou em francês; e dentro em pouco escreverá na nossa língua, cuja literatura já conhece tão extensa e profundamente quanto se poderia exigir de um brasileiro de classe intelectual. Além disso, são dos mais sérios e profundos seus estudos filosóficos, históricos, sociológicos e literários, como os seus artigos para o Brasil irão revelar. Toda a sua obra na Europa constitui, aliás, uma documentação do que estou escrevendo. Entre as suas antigas atividades quero lembrar as seguintes: uma longa colaboração de artigos franceses para “Cité Chrétienne” (Bruxelas); artigos em alemão, como diretor da página cultural de Reichspost, principal diário católico da Áustria, e em holandês, como redator de Gazet van Antuwerpen, grande jornal católico da Bélgica flamenga; redator-chefe de Berichte zur Kultur und Zeitgeschicht, revista austríaca e ponto de convergência dos católicos mais inteligentes e lúcidos; os seus livros: três sobre as letras e a história da Áustria, um outro soi disant apologético, uma obra de apologia do catolicismo “largo” e evangélico contra o catolicismo “estreito” dos bem pensantes, e, por fim, A Missão Européia da Áustria, o qual se tornou um livro da predileção do chanceler Dollfuss. Quatro dias antes de ser assassinado, como prevendo o seu fim, Dollfuss falava dos tormentos e da inquietação daqueles últimos dias, acrescentando que só encontrava tranquilidade na leitura de A Missão Européia da Áustria. Foi este o livro que o chanceler austríaco leu até as vésperas do seu assassínio. A visão deste livro — a de uma Áustria independente e européia — foi a visão que Dollfuss levou para além da morte. Aliás, sobre esta base da independência da Áustria, é que o chanceler Dollfuss e o escritor Otto Maria Carpeaux sempre se entenderam; quanto aos problemas sociais, ao contrário, nunca puderam se entender porque Dollfuss não quis se libertar inteiramente dos mitos totalitários e Carpeaux quis permanecer irredutivelmente fiel aos seus ideais de verdadeiro cristianismo.

Os primeiros artigos — uns já escritos, outros projetados — da série que Otto Maria Carpeaux vai publicar no Brasil — sem falar de um livro esboçado sob o título de Experiência da Europa — constituem, de uma certa maneira, uma confissão do que há de fundamental no seu pensamento e na sua técnica de escritor. Para facilidade de tradução, os artigos foram escritos originariamente em francês, e devemos contar, na parte estilística, com prejuízos da transposição, embora excelentemente realizada pelo sr. Carlos Gilberto de Lima Cavalcanti. Mas estes prejuízos não impedirão o leitor brasileiro de sentir o verdadeiro estilo de Carpeaux. Um estilo que é muito pessoal, muito direto, muito denso. O conhecimento de tantas línguas e de tantas literaturas, fundamente assimiladas, imprimiu-lhe, ao mesmo tempo, um máximo de variedade e de concentração. Notar-se-á que é um estilo vivo, preciso e ardente. Às vezes, enérgico e áspero. Nestas ocasiões, sobretudo, este estilo está confessando um temperamento de inconformista, de panfletário, de “debater”. O temperamento de um homem que, monologando ou dialogando, está sempre numa atitude de luta; ou a luta interior, consigo mesmo, ou a luta exterior, com os seus adversários. Os assuntos e os desenvolvimentos destes seus artigos brasileiros mostram bem esta disposição dramática e incontrolada: Burckhardt, profeta do nosso tempo (um estudo menos sobre o historiador do Renascimento, que já conhecemos, do que sobre o extraordinário profeta da correspondência e dos aforismas, quase inteiramente desconhecido); Franz Kafka e o mundo invisível (exegese da obra do misterioso poeta que André Gide apresentou aos franceses através de La Nouvelle Revue Française); Decadência? (ensaio sociológico e histórico sobre o conceito de decadência, em oposição ao famoso conceito spengleriano); A Física e a Teologia (uma demonstração a respeito da sobrevivência, na física moderna, das convicções e das concepções da teologia do século dezessete, desde que esta física é a obra de homens impregnados da teologia das suas épocas: Descartes, Kepler, Pascal, Newton, Leibniz); O burguês e o “Burguês” (distinção entre as duas categorias em face de um momento histórico que ameaça destruir, ao mesmo tempo, os valores e os não-valores da época burguesa); As nações e os grandes homens (interpretação de três diferentes experiências históricas que os povos fizeram com os grandes homens através das suas consequências também diferentes); Sunt lacrimae rerum (o papel das “coisas mortas” na poesia moderna); e mais: O catolicismo no Ghetto, Thorton Wilder e a nova geração americana, A literatura italiana dos nossos dias, A Rússia e a Europa.

No ensaio sobre Burckhardt, alude Carpeaux ao pessimismo do historiador suíço para concluir que todo pessimista carrega a matéria de profeta. Poderíamos repetir as mesmas palavras a seu respeito. Carpeaux é um pessimista e é um profeta, ou mais exatamente: é um profeta porque é um pessimista. Nada espera deste mundo nem dos homens, nem dos povos, nem dos Estados. Está certo que nenhum acontecimento modificará a substância da velha e invariável natureza humana. Que as civilizações se sucedem sem que nada suceda de novo dentro dos homens. Que só a Morte é um princípio de Vida. E se este é o seu pensamento no plano filosófico, ainda se torna mais pessimista e mais profético no plano histórico, quanto ao momento que estamos vivendo. Na sua primeira carta, já me havia advertido: “Permittez-moi de vous dire que je suis en état d’estimer à sa valeur votre lutte contre l’alliance de la bestialité avec les imbeciles. Une longue et douloureuse experience — je sui certainement beaucoup plus agê de vous — ne fait pressentir que cette lutte, notre lutte, sera en vain. Voilá, un monde perveti, l’ingratitude enveres la jeunesse; une verité, si banale que cruelle, en échange de la consolation très spirituelle dont je vous remercie.” Mas, ao terminar a segunda carta, convidava-me para esta oração: “Bientôt, la fête du Christ-Roi, nous prierons en commum pour le “regnum veritatis et vitae”; regnum sanctitatis et gratiae; regnum justitiae, amoris et pacis”.

Estes dois trechos não se repelem: eles se compõem e se completam. É que o pessimismo de Carpeaux nada tem de feminino, de frágil, de demissionário. Ao contrário, é um pessimismo consciente, trágico, viril. A certeza da insanidade da luta não significa nem desistência nem covardia. A luta, apesar de tudo, permanece como uma atitude, como uma afirmação, como um testemunho. A luta de um homem dentro do mundo independe do seu êxito ou da sua utilidade. Mesmo quando tudo estiver perdido, ficará como um exemplo, como uma semente, como um protesto. Oberserve-se, por exemplo, este pequeno trecho de uma página de Carpeaux, que me parece destinada a transmitir uma impressão não só do seu estilo, mas do seu pessimismo pascaliano e cristão que não exclui a fé: “Crise, c’est l’aveu de tous ceux qui ne savent plus que faire. Crise, c’est le grand subterfuge de tous ceux qui ont perdu la confiance en les choses, en les hommes, en soi-même. C’est le dernier Credo de l’incredulité. Mais on ne pourrait vivre sans foi, sans foi quelconque. La vie, elle-même, est un acte de foi. C’est pourquoi nous prêferons le mourir; la statistique des suicides augmente en progression géometrique. La vie est abaissé, dévaluée, annihilée, et, enfin, la vie se perd.

Une évolution, rapide sans pareille, et dont nous enorgueillissons encore, nous a égarés vers l’abime. Où chercher, où trouver la vois de retour, la voie de salut?

“Je suis la Voie, la Verité e la Vie”. Mais nous, nous trahissons la vie, nous sommes les fils du mensonge ou lieu des enfants de la vérité, nous n’avons pas de voie devant nous. Nous n’avons pas de vois, pas de vérité, pas de vie; nous n’avons pas de dieu. Nous l’avons abandonné; el il nous a abandonnés.”





Estou certo de que a presença de Otto Maria Carpeaux, no nosso meio literário, significa uma nova corrente de vida, muito rica de sugestões, de ensinamentos, de afirmações morais e intelectuais. Mas gostaria, sobretudo, de vê-lo considerado, pelos escritores brasileiros, como um companheiro e um camarada. Ele que poderia exigir um tratamento de mestre, aceitará, no entanto, este sentimento fraternal de união. E não será certamente um estrangeiro entre nós. Em pouco mais de um ano, já leu centenas de livros brasileiros e portugueses para sentir e compreender toda a literatura da nossa língua. Não só a literatura antiga como a mais moderna. Uma das suas cartas, por exemplo, contém um dos mais agudos estudos sintéticos que conheço sobre as principais figuras das nossas letras. Tudo faz esperar, portanto, um perfeito entendimento entre Otto Maria Carpeaux e os escritores brasileiros. Espero, sobretudo, que se possam tornar uma realidade de sentido geral, tanto de um lado como do outro, estas palavras particulares da nossa correspondência que transcrevo para servir como uma espécie de epígrafe ao seu ingresso na vida literária brasileira: “Nous, les hommes de mêmes ideaux, des mêmes haines et de mêmes esperances, nous nous ressemblons tous, nous nous trouvons, enfin, partout; c’est pourquoi j’ai l’impression de vous avoir connu depuis longtemps”.



Alvaro Lins
Correio da Manhã, 19 de abril de 1941.