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Conde d’Eu (obituário)

Uma das últimas fotografias do Conde d’Eu e de sua esposa, a Princesa Isabel, recém-falecida, em companhia de um netinho, o terceiro filho do Principe D. Luiz, tambem falecido 



Repentinamente, quando vinha em viagem para esta cidade, atraído pelos festejos do Centenário [da Independência], faleceu, a bordo do “Massilia”, o Conde d’Eu.

Não se podia revestir de circunstâncias mais dolorosas a morte desse grande amigo do Brasil. Tudo, nela, entristece e comove, desde a instantaneidade violenta com que se abateu sobre a sua vítima, até as circunstancias especiais que a envolvem. Era um amigo que nos vinha, em visita, trazer a sua solidariedade à grande comemoração nacional.


Abandonando o tranquilo remanso de sua habitação em França, ele atravessava os mares, com o coração devorado de desejos de ver, numa exposição magnificente, o extraordinário progresso do país amado. Poucos dias faltavam para que ele, de novo, contemplasse a Guanabara, a que o prendiam intimamente tantas e tão queridas recordações da juventude. De súbito, porém, cortando os planos alvissareiros, a morte o fulmina em meio de sua viagem.

Poucos brasileiros têm tantos títulos ao bem-querer nacional como esse filho da terra francesa. O Conde d’Eu, incorporando-se, pelo matrimonio, à Casa Imperial do Brasil, devotou-se à nossa terra, conquistando o melhor e mais expressivo título de naturalização, aquele que vem do afeto, e que se forma o coração. A guerra do Paraguai o viu entre os bravos, pugnando pelo Brasil: as nossas lutas políticas, na Monarquia, encontraram-no sempre alerta, numa atitude conciliatória disfarçada por uma grande discrição.

A República o desterrou, com toda a Casa Imperial. Mas quando o tempo veio tornar possível, sem receios para o novo regime, que se firmara, a presença dos membros da casa real de Bragança, o Conde d’Eu, que durante toda a sua ausência mantivera as suas relações com os amigos de Pedro II, pode encontrar as mesmas dedicações, sem que esbarrassem em qualquer acompatibilidade.

Havia em torno de sua pessoa uma aureola que o destacava. Ele era o esposo de Isabel, a Redentora, dessa figura santa, dessa venerável princesa a quem a perda do trono não tirou a soberania que soube conquistar sobre os nossos corações. E bastava isso para que o Conde d’Eu tiveste, em nosso afeto, um lugar de maior apreço. Ele era o esposo de Isabel, a Redentora.

O tempo foi passando, todavia. À medida que se apagavam os antigos sentimentos das lutas políticas, as figuras principais da Casa Imperial do Brasil tomavam em nossos espíritos relevo e se cobriam de uma aureola resplendente. Hoje, para as novas gerações, Pedro II e a princesa Isabel são como deuses tutelares, que por um momento protegeram o Brasil e lhe permitiram encaminhar-se para o seu glorioso destino. O lugar de cada um deles é menos em nossos espíritos do que em nossos corações; os sentimentos com que os prezamos são sentimentos de afeto.

Os antigos possuíam os deuses lares, a que se confiava a guarda dos destinos domésticos. Hoje, a estéril impiedade destruiu as divindades lares e deseja criar, para is seus lugares, o culto dos heróis. Se tivéssemos que indicar quem havia de tomar, entre nós, o papel desses deuses lares, a Pedro II e a Isabel, a Redentora, havia de tocar certamente a escolha, porque eles tiveram pelo nosso pais, verdadeiro amor, desse que vê no sacrifício a felicidade de se revelar. O Conde d’Eu incorporou-se a esses sentimentos com a mesma intensidade e dedicação. Amou o Brasil como o mais fervoroso dos brasileiros. No momento em que ele desaparece, o sentimento dessa forte comunidade de afetos nos deve levar a prantear a sua morte com sinceridade e fazer com que as nossas homenagens lhe sejam rendidas de modo a que se compreenda o bem-querer muito íntimo e muito forte com o que o prezávamos.


E que todos sintamos em nossos espíritos o peso desse luto que se abate sobre todo o país, porque acaba de falecer um verdadeiro amigo do Brasil!




Luiz Felipe Maria Ferdinando Gastão de Orleans, Conde d’Eu, nasceu em Neuilly-sur-Seine, a 28 de abril de 1842.

Casou no Rio de Janeiro, a 15 de Outubro de 1864 com a Princesa Isabel de Bragança.

Era filho do Principe Luiz, Duque de Nemours, nascido a 25 de Outubro de 1814 e falecido a 26 de Junho de 1896, e da Princesa Victória de Saxe Coburgo e Gotha, nascida a 14 de Fevereiro de 1822 e falecida a 10 de Novembro de 1857.




A morte do Conde d’Eu foi-nos fornecida pelo seguinte radio, recebido pela Agencia Americana:

“OLINDA, 28 (Radiogramma de bordo do “Massilia”) – Em viagem para o Rio de Janeiro, para onde se dirigia, afim de assistir aos festejos comemorativos do Centenário da Independência, acaba de falecer, repentinamente, o Conde d’Eu.”

Mais tarde recebemos o seguinte:

“BORDO DO ‘MASSILIA’”, 28 Radio – Via Olinda (A.) – Causou profunda consternação a todos os passageiros o falecimento inesperado do Conde d’Eu, que, em companhia dos príncipes seus netos, viajava para essa Capital, afim de assistir os festejos do Centenário.

Por motivo do lutuoso acontecimento foram suspensas as festas que se realizavam a bordo, tendo o Dr. Frederico Castello Branco Clark apresentado à Princesa Maria Pia, viúva do Príncipe D. Luiz, as condolências do Governo brasileiro, e radiografou ao Príncipe D. Pedro de Orleans, que está em viagem para essa Capital a bordo do “Curvalio”, preparando o seu espírito para receber a dolorosa notícia.

O Sr. Dr. Marcelo T. Alvear, Presidente eleito da República Argentina, e o Sr. Adolf Max, Burgo-Mestre de Bruxelas, também apresentaram condolências a Princesa Maria Pia.

Foi armada uma câmara-ardente, onde foi colocado o corpo do príncipe extinto, para a qual tem afluído todos os passageiros. Os brasileiros velarão o corpo do Conde d’Eu”.



Publicado pelo Jornal do Brasil em 29 de Agosto de 1922. O texto não continha assinatura do autor.
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