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Churchill (obituário)





Obituário publicado pelo jornal "Correio da Manhã" em 26 de janeiro de 1965. 
Foi publicado sem a assinatura do autor.


Churchill


Houve um momento em que a Inglaterra esteve sozinha na guerra contra a Alemanha. Os exércitos nazistas ocupavam a Europa ocidental com a exceção da Espanha e de Portugal que permaneciam neutros em face do conflito. A França havia tombado diante de Hitler, e Pétain, que assumira o governo, dispusera-se a assinar a rendição de seus exércitos tal como a Alemanha exigia. A situação da Inglaterra era a mais grave e a mais dramática possível. Não estava preparada para a guerra. Hitler tinha conhecimento do clima de apreensão que existia no governo inglês. Começaram as tentativas de invasão e, em seguida, os bombardeios de Londres. Estaria tudo perdido? O que estava em jogo não era só o destino do Império Britânico. Era também o destino da democracia na Europa. Foi nesta hora que a personalidade de Winston Churchill manifestou-se em toda a sua grandeza. A energia, a perseverança, a indomabilidade de seu temperamento combativo contribuíram para criar as condições necessárias de resistência que levariam um povo ameaçado a defender igualmente a nacionalidade e o regime. Porque a segunda guerra mundial era bem diferente da primeira. Não se tratava, apenas, de defesa nacional. Tratava-se de luta contra o fascismo, contra o regime totalitário que poderia, pelo terror, conduzir a humanidade a uma nova Idade Média, ainda mais funesta, porque seriam empregadas contra a civilização as próprias conquistas da tecnologia e da ciência. Tratava-se de preservar a liberdade humana que se achava em perigo diante da ofensiva gigantesca de uma máquina de guerra que visava à escravização da humanidade.

A Inglaterra esteve só. A França recusara um convenio de aliança instalado em Londres. A Rússia de Stalin assistia impassível à conquista da Europa em vista da Europa em vista do pacto de não-agressão que assinara com a Alemanha. Os Estados Unidos não se mostravam dispostos a participar da guerra para socorrer eficientemente a Inglaterra.

Winston Churchill resolveu resistir de qualquer maneira com a teimosia de um bull-dog. “Sangue, suor e lágrimas” foi a divisa da resistência da Inglaterra. E esta resistência Churchill a organizou de uma forma admirável. Graças a ela, que foi tomando corpo com o tempo, salvaram-se a Inglaterra e a Europa do domínio nazista.

O papel de Churchill, em nosso tempo, toma um caráter épico pela solidão da Inglaterra na luta contra Hitler. Uma solidão que daria elementos para despertar a consciência democrática do mundo diante do perigo mortal.

A história mostrou, mais uma vez, que o regime da força, da violência e do terror teria de ceder diante do ideal de ser livre. Mostrou também que, nos momentos em que tudo parece perdido diante da ameaça totalitária, há sempre uma reserva no fundo de todos os povos, um sentido de autodefesa que os conduz a lutarem desesperadamente e a alcançarem a vitória, evitando o retrocesso que custaria a própria liberdade.

Winston Churchill foi a peça decisiva num dado momento da história. Qualquer que seja a restrição que se possa fazer ao seu conservadorismo ideológico e político ninguém pode negar o papel admirável que ele desempenhou na luta contra a Alemanha e contra o fascismo.

Hitler nunca supôs que a Inglaterra, sozinha, resistisse como resistiu. Acreditava sinceramente num armistício que garantisse à Inglaterra o seu império colonial. Mas Churchill permaneceu inabalável no propósito de resistir. E resistiu para vencer.

Ele sabia que, após a guerra, seria inevitável a libertação das colônias. Mas isto era inevitável em decorrência da evolução econômica e histórica do mundo moderno. O essencial era derrotar o inimigo que ameaçava atravessar o mar da Mancha. O essencial era aniquilar o regime de que Hitler era o representante.

Após a vitória, o seu destino estava cumprido. Poderia retirar-se da cena, a fim de que outros homens, numa nova conjuntura da política mundial, realizassem a obra que a época exigia.


A morte de Churchill consterna a humanidade. Ele foi um homem acima das dimensões comuns. À beira de uma época de dúvidas e angustias projetou-se como um herói. E como herói provou que a defesa da democracia desperta uma bravura bem maior do que a inspirada pelos regimes em que o povo apenas segue a vontade de um chefe.





Obituário publicado pelo jornal "Diário Carioca" em 26 de janeiro de 1965.
Foi publicado sem a assinatura do autor.


A lição de Churchill



Dizer que a morte de Winston Churchill consternou, profundamente, a opinião pública mundial, não é dizer tudo. Cumpre acrescentar que privou o Século XX do seu maior estadista, o grande apóstolo da Dignidade Humana — esse valor fundamental pelo qual o homem atinge sua realização absoluta.

Sem a posse da própria dignidade, que inclui a consciência da dignidade alheia, não há culto válido dos demais valores morais. Para Winston Churchill, a "batalha da Inglaterra", nos anos negros de 1940 e 41, não era um ato isolado de bravura nacional, era muito mais que isso: a demonstração, para a Europa subjugada, de que cada povo tem o dever, em nome da sua História e das gerações vindouras, de lutar pela liberdade até o último homem, de preservar sua dignidade até o limite máximo de resistência. Daí a transcendência das palavras de agosto de 1940, quando se cumpria a sinistra ameaça de Hitler, de escurecer os céus da Inglaterra com as esquadrilhas da Luftwaffe: "Defenderemos nossa ilha custe o que custar. Lutaremos nas encostas, nos pontos de desembarque, nos campos, nas ruas, nas colinas. Nunca nos renderemos. E ainda que esta ilha ou grande parte dela fosse dominada, o nosso Império continuaria a luta do outro lado do mar!"

Aquela voz enérgica, brotada das profundezas da indignação sagrada, ressoou em todos os aparelhos de rádio, onde quer que houvesse a esperança da vitória sobre a barbárie e o despotismo. Inflamaram de novo ânimo a têmpera dos soldados britânicos encurralados na Ilha; iluminaram, como que por ação sobrenatural, as feições daqueles que resistiam, heroicamente, nos esgotos e nas montanhas dos países subjugados: aqueceram os corações das mulheres sobressaltadas pela sorte dos maridos e filhos no "front". Já não era o estilo vitoriano do grande orador que se fazia ouvir por todo o Ocidente deflagrado, mas a linguagem direta em que a fé nos recursos mais nobres do espírito humano sabe se exprimir. Tão direta quanto aquele gesto de dois dedos em V, mais eloquente que os tropos da retórica.

Foi, ainda, o culto da dignidade humana que levou Churchill a repelir, na Conferência de Teerã, a proposta de Stálin, de após a vitória dos Aliados fuzilarem-se, sem julgamento, os criminosos de guerra nazistas. Replicou, secamente, o "premier", segundo testemunha Elliot Roosevelt, filho do presidente norte-americano. "Na minha opinião, nazi ou não, ninguém deve ser 'levado perante um pelotão de fuzilamento sem que antes tenham sido estudadas todas as provas e indícios de sua culpabilidade". Nuremberg, dois anos após, viria confirmar- lhe a tese.


Por estas e tantas outras atitudes, Sir Winston Leonard Spencer Churchill será lembrado, enquanto existir a raça humana.
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