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Princesa Isabel, a redentora (obituário)





Pouco a pouco abalará o país, numa comoção espontânea, essa notícia que há momentos temos sob a vista - o falecimento, em Paris, da Princesa Isabel. Será um dia lúgubre e nenhum coração de brasileiro poderá deixar, neste dia, de se confranger com o acontecimento lutuoso. 

Temos, de certo, grandes homens e possuímos, mercê de Deus, alguns nomes raros capazes, pelo mérito que tem, de honrar a qualquer país, elevando a pátria com o brilho dos valores que traduzem. Mas entre todas as nossas grandezas, entre a coorte numerosa de nossos homens eminentes, destacava-se pela sua significação especial essa Princesa que o Destino acaba de derrubar, num de seus golpes inclementes. E tão alta e tão nobre era a sua grandeza que só de a podermos apontar nos vinha um orgulho legítimo.
De certo que outras gerações é que a haviam adorado. E o tempo passou com a sua pressa e as suas destruições e veio outra gente com uma outra alma, outra mentalidade e um desprezo completo pelo passado. Era a mocidade e esta ignorava a glória de Isabel, a Redentora. Felizmente, porém, das flores trancadas sobe o perfume que delicia e da santidade de Isabel acendeu até os nossos tempos a notícia de sua grandeza e foi esse um perfume que nos encantou e nos fez erguer a cabeça e sorrir, no orgulho de um nobre passado.

Muito se tem escrito da Abolição, mas ainda não se fez o trabalho necessário de divulgar amplamente os seus episódios e a sua significação. No dia em que toda a gente souber do que foi esse movimento, muito pessimismo virá por terra quando nos capacitarmos da existência demonstrada duma consciência nacional.

Que papel teve nele Pedro II? E a Princesa Isabel? Não nos cumpre nesse momento indagar. Basta dizer que a opinião pública despertou, agitou-se, formando-se em sociedades deliberadas que promoveram a campanha mais gloriosa de nossa história. E foi subindo a opinião pública de conquista em conquista, até o triunfo completo. A proibição do tráfico de negros, a lei do ventre livre e a libertação dos sexagenários foram vitórias parciais de uma campanha, etapas necessárias da marcha para a Abolição.

Cedeu logo o Imperador ou resistiu hostilizando o movimento? Não importa ainda sabê-lo, mesmo porque é impossível dizer qual devia ser, naquele momento, o papel de Pedro II, porque tão útil era concorrer para a abolição como resistir, desde que os embaraços serviriam para preparar o advento da lei. E se a Abolição não nos foi um grande desastre é porque a precedera o longo trabalho da preparação. 

Isabel ligara o seu nome a três etapas decisivas do abolicionismo. Ela que promulgara a lei do ventre livre, com o ministério Rio Branco; ela, ainda, que promulgara a lei de alforria dos sexagenários; ela, finalmente, que promulgara, a 13 de Maio, com o Gabinete João Alfredo, a definitiva Abolição da Escravatura. E por tudo isso lhe deram, com justiça, o nome de Isabel, a Redentora.

Meditemos um instante na significação desse título. Pensemos na tragédia da escravidão no horror das senzalas, nos suplícios contra o corpo e contra a alma, na abjeção do comércio nefando e vemos então que ter sido Redentora desse mal é uma auréola de santidade, um serviço tão grande que toda a vida prosternados diante de sua imagem não recompensaríamos bastante.

O seu benefício não foi somente o Brasil de ontem; também para o Brasil de hoje, pelas repercussões daqueles atos, ela é bem Isabel, a Redentora.

Porque escravidão não era apenas flagelo para uma raça, mas para todo o país. A mentalidade dos escravocratas era uma desgraça imensa para o Brasil com todos os seus prejuízos e todos os seus desmandos. A escravatura, no dizer de um dos nossos mais ilustres pensadores, era um cancro que devastava o organismo nacional. Curamo-lo, mas quantos traços conservamos do mal? Como não é horrível a sua cicatriz?

Curamo-lo, em todo o caso, e mais algum tempo desaparecerão os últimos vestígios do mal. Foi um passo incomparável de nossa história e saibamos prezar, por isso, a Soberana que ligou o seu nome às etapas dessa campanha. Saibamos honrar Isabel, a Redentora, cultuando-a carinhosamente, prestando-lhe as homenagens que lhe devemos.

Podemos ter, neste momento, uma satisfação: - é que a santa septuagenária pôde verificar, pouco antes de sua morte, que seu nome só inspirava, no Brasil republicano, uma carinhosa veneração.

Não serão outros os sentimentos que a notícia de sua morte acordará no coração dos brasileiros. E é de justiça que todo país, hoje, saiba cumprir o seu dever de gratidão para com essa Princesa magnânima que soube servir ao Brasil no maior de nossos acontecimentos e que no instante em que a morte a derrubou bem poderia ter resumido a sua vida como 75 anos de um amor imenso e desvelado pelo Brasil.

Seríamos péssimos patriotas se não soubéssemos ser gratos a Princesa generosa, à Princesa excelente, à Isabel, a Redentora, àquela que foi na sua existência uma constante irradiação de bondade.





A Princesa Isabel era filha do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz D. Thereza, Princesa das Duas Sicílias.

Nasceu no Rio de Janeiro a 29 de Julho de 1846 e recebeu os nomes de Isabel Cristina Leopoldina Agostinha Michaela Gabriella Raphaela Gonzaga de Bragança.

Casou-se nesta capital a 16 de Outubro de 1864 com o Príncipe Gastão de Orleans, Conde d’Eu.

Por duas vezes foi regente do Império e por duas vezes ligou o seu nome aos maiores fatos da nossa história político-social.

Foi ela que assinou a Lei de 28 de Setembro de 1871 e a lei Áurea de 13 de Maio de 1888.

Foi, incontestável, esse o maior dia de sua vida.

O projeto de lei, apresentado à Câmara, teve ali um curso muito rápido, indo logo para o Senado onde ainda mais rapidamente foi discutido e votado.

O Rio de Janeiro em peso aglomerava-se no campo de Santa Ana e, quando a redação da lei foi votada, das galerias choveram flores sobre os velhos senadores que estavam dominados pela emoção.

A Princesa Isabel viera de S. Cristóvão para o Paço da Cidade especialmente para firmar a Lei Áurea com uma caneta de ouro que José do Patrocínio adquirira por subscrição pública.

Ao assinar a lei a Princesa estava visivelmente emocionada. Não lhe era possível esconder o júbilo que lhe ia na alma. E, no entanto, ela sabia que assinando a lei que declarava que daquela data em diante não havia mais escravos no Brasil, assinava também, tacitamente a sua renúncia ao trono.

A campanha abolicionista fora rude. Os pioneiros dessa santa cruzada não pouparam esforços para alcançar o triunfo e para isso empregavam todas as armas. O trono foi muitas vezes alvejado pelos abolicionistas, mas naquela hora, grandiosa e solene todos os abolicionistas estavam ao lado do trono exalçando a Sereníssima Princesa que assim sacrificava um trono para libertar uma raça.

O Rio de Janeiro vibrou de entusiasmo durante quinze dias, tantos foram os que duraram as festas com que se comemorou o grandioso fato histórico.

As ruas da cidade engalanavam-se à porfia e nunca mais até hoje houve tão brilhantes ornamentações como as que então se fizeram.

A rua do Ouvidor era um verdadeiro buquê de flores e assim, as ruas dos Ourives, Uruguaiana, Quitanda e outras.

A Princesa foi a todas as festas, e por toda a parte o povo se apinhava em torno do coche imperial, saudando a excelsa senhora.

Houve quem por vezes lhe visse a bailar nos olhos lágrimas de emoção e de satisfação de dever cumprido.

Talvez que nessas horas de alegria uma nuvem lhe perpassasse pela mente, nuvem negra que se formava, tão negra como a raça que ela libertara.

Era formada pelos descontentes, pelos que viviam do trabalho escravo e que se sentiam prejudicados pela Lei Áurea.


O Papa, por essa ocasião, ofereceu à Princesa Isabel a Rosa de Ouro, alta e distinção raramente conferida por Sua Santidade.





A Princesa Isabel era querida do povo e sobretudo dos pobres que ela socorria, o mais das vezes ocultamente. No Palácio Guanabara davam-se mensalmente vultuosas esmolas que a imprensa não noticiava porque eram conservadas em segredo. Só os beneficiados pela mão da princesa é que a bendiziam e que nas suas orações não cansavam de pedir aos céus benesses e venturas para ela.

Mãe extremosa, educava os filhos com todo o carinho, dando-lhes bons mestres e obrigando-os ao estudo severo.

Dois grandes desgostos teve, quase no fim da vida, e quase seguidos. O primeiro com a morte de D. Antônio, durante a grande guerra, num desastre de aviação, e o segundo com a morte do Príncipe D. Luiz, em consequência de moléstia adquirida nas trincheiras onde ele se batera com heroísmo.

Ampararam-na nesses dolorosos transes os braços já trêmulos do seu velho companheiro de mais de meio século, o Conde d'Eu e seu filho D. Pedro, que não há muito  aqui vimos, admirando as belezas da sua pátria que ele deixara criança e que revia homem.

Desde então ficou-lhe o coração combalido e uma congestão pulmonar fê-lo deixar de pulsar, levando-lhe a vida tão preciosa e encerrando no livro de ouro da História a história da sua vida.

Por certo, o seu último pensamento foi para esta terra que a viu nascer, que ela amou tanto que não pode rever, mas onde, sem dúvida, dormirá o seu último sono, ao lado de seu pai o Magnânimo Imperador, e à sombra das verdes palmeiras e cercada pelas hortênsias de que ela tanto gostava, quando, nos verões de Petrópolis, passeava pelas longas avenidas que margeiam o Piabanha.

A morte cerrou-lhe os olhos para sempre, mas a Glória abriu-lhe de par em par as portas do seu templo!





A notícia da morte da princesa Isabel tivemo-la por intermédio da Exma. Sra. Baronesa de Loreto, que recebeu o seguinte telegrama do Conde d'Eu:

“PARIS, 14 (Às 9.15 horas) -  Baronesa de Loreto - Rio de Janeiro. -  Imerso na maior dor comunico queridíssima Princesa falecida de fraqueza cardíaca, agravada por congestão pulmonar. Rezem por nós. - (a.) Conde d’Eu.”





Até a última hora o Governo não havia recebido nenhuma comunicação oficial.

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Obituário publicado pelo "Jornal do Brasil" em 15 de novembro de 1921. Foi publicado sem a assinatura do autor. 
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