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Bernardino da Costa Lopes, o poeta boêmio (obituário)


Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles. Avenida Central na altura da Rua do Ouvidor, com rua Miguel Couto, Rio de Janeiro, c. 1906. Negativo de Vidro. Reprodução: site "Rio Primeiras Poses".


Publicado originalmente no jornal "O Paiz" em 19 de setembro de 1916 na coluna "Vida Social"

Nós nos vimos integrando na compreensão dos destinos do Brasil, da qual tão desviados andávamos... O Brasil, país imenso e novo, precisa produzir e progredir. Cada cidadão, pois, deve organizar a sua vida dentro de normas utilitárias e práticas. O poeta boêmio é, assim, um tipo que aqui não pode mais existir. O último deles foi decerto esse pobre B. Lopes, ontem colhido pela morte.

É de notar que o próprio B. Lopes, além de poeta integralmente boêmio, era Bernardino da Costa Lopes, funcionário aposentado dos correios.

B. Lopes teve uma larga época brilhantíssima, de inteiro sucesso.

Com uma bela resistência conseguiu viver longos anos depois que se deixou empolgar por um intenso desregramento. Boêmio por temperamento como pelas influências da época em que ascendeu e fulgiu, desapareceu com 57 anos feitos, pois o seu nascimento ocorreu na cidade fluminense do Rio Bonito em 18 de janeiro de 1859.

De há muito deixara ele de escrever e quase ninguém dele se lembrava. Os seus versos, com uma porção de qualidades magníficas, entre as quais avultavam a espontaneidade e a harmonia, faziam novos admiradores. Mas ninguém sabia o que era feito do inspirado e heráldico cantor de tantas condessas e duquesas nobres como as reais senhoras do Brasil. E dizia-se apenas que ele descambara franca e vertiginosamente pelo álcool.

Mas no quatriênio passado, B. Lopes, de repente, teve um momento intenso de notoriedade.
Amigos do governo organizaram uma polvanteia e pediram a colaboração do poeta. Este escreveu um soneto, que os organizadores da homenagem fizeram imprimir sem ler. Quem não se lembra do pitoresco escândalo desse soneto, em que havia o famoso verso – bonito herói, cheirosa criatura?

B. Lopes queria fazer uma troça ou estaria irremediavelmente atingido?

Foi essa a hipótese que infelizmente, se confirmou com a notícia da sua entrada para o Hospício Nacional. Saiu de lá bem melhor. Mas o destino dos homens é inexorável. A boemia que o devia matar o reempolgou. E ontem deixou de existir, na casa da Rua Cesária, nº 12, no Engenho de Dentro,o autor dos Chromos, que nos seus anos de glória chegou a fazer escola no Brasil...

B. Lopes deixa uma obra considerável, complexa e encantadora.

Em Sinhá Flor, em Dona Carmen e em outros livros, foi um lírico vibrante e formoso.

Os Chromos são pequenos quadros da vida de todos os dias, deliciosamente feitos.

A sua preocupação aristocrática, os seus versos com duquesas, com galgos nobilíssimos, desenrolando cavalgadas reais através do volume dos Brazões, profundamente ingênuos, mas de forma arrebatadora e fluente, marcaram, com os versos de paixão, a primeira fase da sua carreira literária e valeram-lhe a popularidade e triunfos.

Como verdadeiro artista, porém, B. Lopes estava no caminho da perfeição. Nos sonetos dos Helenos ele é um artista mais seguro, mais equilibrado, com uma visão mais larga, um sentimento mais profundo das coisas.

Produzindo com facilidade, não houve gênero que não tentasse. Um dos seus sonetos místicos Foederis Area, tem merecido a honra de ser incluído nas nossas antologias.

Nos últimos volumes por ele publicados há versos inteiramente admiráveis, em que uma grande beleza é atingida, graças a uma emoção sincera e a uma simplicidade instintiva. São sonetos como O Velho Muro, que assegurarão a B. Lopes um esplêndido lugar na posia brasileira.

O poeta revê um muro de chácara, que a ação do tempo vai demolindo e cobrindo de musgo. E lembra-se de uma história de amor, que sobre tal ruína, noutro tempo maravilhosamente floriu. E como sabe evocá-la!


Forte e novo eu te vi na idade bela
Em que, falando para o namorado,
Tinhas no ombro de pedra debruçado
O corpo senhoril de uma donzela

Linda hipomeia te bordava a crista
Eras, ao luar de leite, um linho albente
- Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

Em ti pousava a doce borboleta:
E quantas noites viste, ermo e silente,
Romeu beijando as mãos de Julieta!

Se B. Lopes viveu e morreu como boêmio, e foi o último dos boêmios de seu tempo, não há dúvida que em torno de seu berço se reuniram as Musas. Ele nasceu poeta e como tal brilhantemente há de ficar.
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