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Meus Heróis do Jornalismo: Samuel Wainer



“Minha razão de viver”, biografia de Samuel Wainer se revelou uma bela surpresa. Confesso que ignorava todos esses grandes nomes de um passado recente do jornalismo brasileiro, nomes que não me eram estranhos, uma vez que conheci muitos deles no semestre anterior na disciplina de História do Jornalismo. Mas sabe como é, novos tempos... Eu li o livro como uma atividade para a disciplina de Técnicas de Radiojornalismo, no 5º semestre, o que eu não poderia imaginar é que da leitura da biografia do dono de “Última Hora” eu me tornaria tão interessado nas histórias dos grandes jornalistas de um passado nem tão distante assim (brasileiros ou não).

Num preambulo, Jorge Amado descreve o amigo:

 Não sei de nenhum outro jornalista, de nenhum outro cidadão que fosse um brasileiro tão completamente brasileiro na maneira de reagir, de sentir, de viver, de amar, de ser, quanto Samuel Wainer, menino do Bom Retiro, que se fez, à custa do próprio esforço, uma das maiores figuras intelectuais de nossa Pátria, um mestre. Sua vida teve o fulgor de estrela a iluminar os caminhos do Brasil. (p.10)

A “produção” do livro se deu através de entrevistas do próprio biografado (e por isso eu ainda não consegui decidir se o chamo de biografia ou de autobiografia) aos jornalistas Sérgio de Souza e Marta Góes entre janeiro e agosto de 1980. Essas “sessões de interrogatório” renderam 53 fitas de áudio que, sob supervisão de Augusto Nunes, se tornaram o melhor livro que já li para algum trabalho desde que entrei na universidade.

Pinky Wainer, filha de Samuel, no capítulo de apresentação do livro, conta ao leitor sobre o comportamento do pai no decorrer das entrevistas:

Samuel parece frio, objetivo, percorre os assuntos como se os tivesse editado. Ressalva que não está empenhado em explicar-se ou justificar-se; deseja, apenas, contar a sua história. [...] Diferentes entre si, as três etapas que compuseram este mergulho de Samuel Wainer pelo seu passado exibem um traço comum: a completa ausência de censura. (p.11)

O livro fala principalmente (ou talvez eu é que tenha dado maior atenção a isso) sobre a relação entre Wainer e Vargas e o comprometimento – até o fim – do jornalista com aquilo que Vargas representava, toda a ideologia que ainda hoje seu nome carrega.

A amizade, fruto de uma aventura jornalística, mudou para sempre a vida daquele repórter que veio a se tornar dono de um jornal – e dos grandes! Além disso, o livro expõe a relação entre imprensa e o governo, muito mais íntima do que eu podia imaginar. É claro que eu já tinha ouvido falar da relação muito próxima (na verdade siamesa) do jornalismo com o poder, mas eu só consegui entender como ela se dava de verdade depois de ler as recordações de Wainer (“o aparato que [eu] lhe prometera” aparato: Última Hora; eu: Wainer; lhe: Getúlio).

A razão de viver de que fala o nome do livro é a obra da vida de Samuel: o jornal popular Última Hora. Construído com a ajuda de Getúlio para ajudar a Getúlio, o jornal se colocou como uma opção ao resto da imprensa que abominava o governo do ex-ditador.

O livro tornou-se uma experiência ainda melhor porque enquanto eu lia os relatos de Wainer a respeito das pressões sobre o governo de Vargas (principalmente da imprensa que em certo momento queria ignorar a existência deste) e como aquilo culminou com o suicídio do presidente, tinha início, no Brasil de hoje, a crise política que resultaria no impeachment de Dilma Rousseff e ascensão de Michel Temer ao poder – crise que, ao que parece, só faz se agravar. Muitas coisas ficaram claras para mim, detalhes sutis que eu ignoraria antes desta leitura.

Além disso conhecemos detalhes do cotidiano profissional de um repórter se virando para se sustentar em Nova Iorque, Nuremberg (na época do julgamento dos nazistas), no Egito, Israel (convivendo com terroristas) ou no Chile (com seu amigo Salvador Allende). Confesso que os relatos sobre o trabalho de repórter (principalmente porque nunca entrei numa redação de verdade) eram minhas partes favoritas (depois dos encontros com Getúlio) e me faziam querer ir logo atrás de um emprego.

O último capítulo antes do epílogo me decepcionou. Eu sei que, por se tratar de memórias narradas pelo biografado, seria impossível que o livro cobrisse os acontecimentos que se sucederam até a morte de Wainer (talvez isso fosse possível com o Chico Xavier, não sei. Vou pesquisar, enfim...), mas, concordando com o epílogo de Augusto Nunes, a maior obra de Samuel foi sua própria vida. Por isso mesmo eu gostaria de saber como foi o período em que trabalhou com Adolfo Bloch (a quem tinha criticado como jornalista), a experiência de ter uma coluna na Folha de S. Paulo, e sobretudo, saber como foi a experiência de voltar à Ultima Hora como funcionário, não mais como dono.
Recomendo o livro não apenas aos estudantes de Comunicação Social, mas para todos aqueles que tem interesse pela história da imprensa brasileira, a história de Getúlio Vargas, e claro, a história recente do país. Depois da experiência, com certeza vou dar ainda mais atenção para aqueles nomes que pareciam tão distantes de mim no semestre passado, mas que ajudaram a construir a imprensa que temos hoje. A seguir, minha passagem favorita e as informações técnicas do livro.

Olhei pela janela e vi uma multidão de manifestantes descalços, subnutridos, feios. Gritavam Getúlio!, e reconheci o mesmo urro medonho, assustador, com o qual me familiarizara durante a campanha eleitoral de 1950. A massa estacou diante do prédio da Última Hora e exigiu que eu lhe falasse. Nunca fui um orador, mas tive de vencer minha inibição e, de uma sacada do prédio, ainda chorando, pedi à multidão que mantivesse a tranquilidade. Afirmei que o urro que ali ouvia me recordava a campanha que levara Getúlio de volta ao poder, e que aquele mesmo rugido deveria continuar ecoando, agora para sustentar as bandeiras nacionalistas e populares pelas quais Vargas sacrificara a própria vida. Naquele momento, compreendi que a Última Hora sobreviveria ao homem que havia inspirado sua criação. (p. 206)


TÍTULO: Minha Razão de Viver – Memórias de um Repórter
EDITORA: Record
EDIÇÃO: 11ª
ANO DE PUBLICAÇÃO: 1988
PÁGINAS: 283
COORDENAÇÃO EDITORIAL: Augusto Nunes
Baseado em depoimentos de Samuel Wainer

PREÇO: paguei R$13 na Estante Virtual 
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