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O amiguinho doente de Babe Ruth (obituário)

Ilustrção: Johnny Sylvester, em leito de hospital, recebe Babe Ruth


escrito por Robert McG. Thomas Jr.

11 de janeiro de 1990



Haverá quem diga que o pequeno Johnny Sylvester nunca ficou doente daquele jeito, e que certamente não esteve à beira da morte. Dirão que Babe Ruth nunca lhe prometeu um home run no quarto jogo do World Series de 1926, e que os três home runs que Babe marcou naquele jogo não salvaram a vida do menino de onze anos.

Qualquer versão diferente, dirão essas pessoas, é apenas um embelezamento de um incidente corriqueiro nas mãos de uma imprensa ultra-sentimental numa época hipersentimental.
Essas pessoas são conhecidas como cínicas. E embora o ceticismo delas seja compreensível em vista do número de versões exageradas e contraditórias da famosa promessa e de sua realização ainda mais famosa, essa desconfiança é uma pálida sombra diante da poderosa lenda, e ainda por cima vai contra a verdade dos fatos.

Como fica bastante claro pelos registros, Johnny Sylvester estava gravemente doente em outubro de 1926. E Babe Ruth realmente lhe prometeu um home run. E se os três home runs que Ruth fez contra os Cardinals em St. Louis em 6 de outubro não trouxeram uma cura instantânea, certamente não fizeram mal.
Pois o pequeno Johnny Sylvester não só viveu para contar a história como também passou as seis décadas seguintes fazendo isso. E quando John Dale Sylvester morreu, aos 74 anos, pareceu ser uma ocasião adequada para conta-la mais uma vez.

Sylvester, que morava em Garden City, Long Island, e morreu no Winthrop University Hospital em Mineola, formou-se na Universidade Princeton em 1937, foi tenete da Marinha na Segunda Guerra Mundial e depois presidente da Amscomatic Inc., fabricante de máquinas de embalagem em Long Island City, no Queens.

Não havia nada que Sylvester pudesse ter feito que se equiparasse ao ápice que atingiu em 1926, quando se tornou o garotinho mais famoso dos Estados Unidos.

Um motivo pelo qual os céticos gastaram tanto tempo desacreditando o episódio é a série de doenças que foram atribuídas a Sylvester, entre elas septicemia, sinusite, infecção da coluna e problema nas costas. Mas, segundo seu filho John D. Sylvester Jr. e pelo menos um relato da época, a doença era uma infecção na testa provocada por um coice de cavalo, que o menino recebeu depois de cair da montaria em Essex Fells, Nova Jersey. O pai, Horace C. Sylvester Jr., vice-presidente do National City bank em nova York, tinha uma propriedade naquele local.

Na maioria das versões o menino estava à beira da morte. Uma delas dizia que os médicos haviam lhe dado trinta minutos de vida, até ele se reanimar após o pai prometer que atenderia seu último pedido, uma bola de beisebol assinada por Babe Ruth. Não está claro se foi o menino que teve a iniciativa de pedir a bola autografada, ou se o pai ou um tio acharam que o presente poderia animá-lo.

O que parece estar bem claro é que a família mandou telegramas urgentes aos Yankees em St. Louis e que um pacote com duas bolas chegou por via aérea, uma delas autografada pelo time dos Cardinals e a outra com as assinaturas de vários Yankees e uma mensagem especial de Ruth: “Vou fazer um home run para você na quarta-feira”.

Uma versão hollywoodiana, no filme A história de Babe Ruth, de 1948, com William Bendix no papel de babe fazendo a promessa ao menino no leito do hospital, parece estar errada em pelo menos dois aspectos. A promessa não foi feita pessoalmente, e o menino, pelo que tudo indica, não chegou a ir ao hospital.

Babe fez até melhor, é claro, mas nem ele era invencível. Um bilhete de Ruth “para meu amiguinho doente”, de 9 de outubro, o dia do sexto jogo, dizia: “Hoje vou tentar fazer mais um home run, talvez dois, para você”.

Infelizmente Ruth não marcou nenhum home run e os Yankees perderam, assim como aconteceu no dia seguinte, quando um home run não prometido de Ruth não foi o suficiente para salvar o jogo nem o World Series para os Yankees. Ou como disse Johnny Sylvester na tentativa de consolar babe, durante uma visita muito anunciada ao menino depois das partidas: “Pena que os Yanks perderam”.

Além do filho John Jr., de Huntington Station, Long Island, Sylvester deixa a irmã Ruth Eliot, de Barrigton, Rhode Island, o irmão Horace C. Sylvester Jr., de Ostervelle, Massachusetts, e duas netas.



Este obituário foi originalmente disponibilizado em Língua Portuguesa na coletânea "O Livro das Vidas" publicada pela editora Companhia das Letras e organizada por Matinas Suzuki Jr.
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