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O menino Valtêi

menino Valtêi


Valtêi era um menino de dez anos diferente de todos os outros. Veio com sua família do sertão de Minas Gerais e hoje vive na favela do Escalvado, no Rio de Janeiro. Seu passatempo preferido é passear pelo centro da cidade, gosta do tumulto, gosta do barulho, de olhar as vitrines das lojas. Sobretudo gosta de estar longe de casa.


Quando tinha mais ou menos dois anos de nascido, o menino queria era judiar qualquer bicho que encontrasse pela frente? Uma vez seu João Passarinho, seu pai, indagou à Valtêi porque fazia aquilo com os bichinhos. O menino lhe respondeu prontamente, com a ingenuidade de quem acreditava que papai noel existia: "Eu gosto de matar".

Seu João Passarinho fez questão de espalhar a conversa para quem pode, claro que sempre acrescentava um tiquinho mais que era para a história ficar melhorzinha, além do mais tinha a memória tão fraca que nem devia se lembrar do que tinha acontecido de verdade.

Os pais de Valtêi sempre foram tidos pelos vizinhos como pessoas de bem. Dona Joaquina, a costureira da vizinhança, que os conhecia há mais de quarenta anos, dizia para quem quisesse ouvir que sempre foram boas pessoas. Que não havia nada para se queixar.

Mas o mesmo não dizia de Valtêi. Nem ela nem ninguém da vizinhança. Para eles Valtêi era ruim desde antes de nascer. A maioria dos vizinhos era de religião espírita e o Senhor Quelemém, que era o líder do Centro Espírita “Amor ao Próximo”, disse certa vez que o pobre menino só podia ser a reencarnação de uma pessoa muito cruel que merecia sofrer.

Dona Maria Cocó, uma médium muito respeitada na comunidade dizia do menino algo parecido. Acreditava que aquela alma vinha direto do breu para que, na pele de Valtêi, pagasse por suas perversidades passadas.

Numa manhã qualquer, como nas manhãs anteriores, e nas que ainda viriam, a senhora sua mãe mandou-lhe comprar pão e leite para o café da manhã. O menino, muito distraído, caminhava pela Praça da Estação, e já planejando para onde iria quando saísse da escola, encontrou Dona Crioula, uma moradora de rua, dormindo numa calçada, enrolada em jornais da semana retrasada e fedendo a álcool. O garoto quebrou uma garrafa que estava ali perto e foi cutucar a velha.

O vidro quebrado e pontiagudo cortou a idosa que foi parar no Hospital Souza Aguiar. A história circulou rapidamente na comunidade e fez com que os pais do moleque, que já sentiam vergonha pela quantidade de vezes que seu filho aprontava fazendo com que se tornassem alvo dos mexericos dos vizinhos, ficassem ainda mais irritados.

"Demos a ele um nome moderno para que ele se acertasse na vida, mas esse menino desde que se entendeu por gente só nos tem dado desgosto," lamentava seu Pedro. E às reclamações seguiam-se as surras que o menino tomava quando chegava em casa. Qualquer coisa era motivo para bater na criança, outro dia ficou todo roxo por conta da asa de uma xícara...

Havia uma única pessoa na vizinhança que tentava fazer algo por Valtêi. Era Dona Gerênia, presidente da Associação de Moradores da Favela do Escalvado. Ela achava que não se devia bater tanto numa criança e inclusive já tinha se metido numa briga feia com a mãe do menino. Ela dizia que os dois gostavam de bater nele, que se divertiam fazendo isso.


Seu Pedro Pindó e a esposa tentavam de tudo para corrigir o menino. Batiam no corpinho dele de chicote e depois limpavam o sangue da pele com salmoura. Amarravam o menino na árvore plantada no fundo da casa e o deixavam lá sem comer o dia todo. Mesmo no frio, deixavam o menino lá, coberto apenas pelas voltas da corda velha e suja.


Dona Mariquinha, zeladora do Centro Espírita, também tinha muita pena da criança, mas não tinha coragem de fazer nada. Tinha com ela que não devia se meter na educação que lhe davam, afinal não era sua mãe nem nada. Mas desconfiava que magro como estava, com os olhos fundos, carinha que só osso e aquela tosse feia ele não ia durar. Quando ouvia seus lamentos de longe ou via o pobre sofrendo amarrado na árvore ele até lhe parecia um bom menino.

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