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Como me tornei Jornalista



Crônica de Jaqueline Braz

Conforme as gotas de chuva caiam com maior intensidade, o medo e a insegurança aumentavam dentro de não uma, nem duas pessoas, mas de todo um bairro. A chuva tinha cheiro de terra molhada, mas também tinha o aroma do medo que impregnava bem mais que qualquer outro cheiro.

Era um bairro de periferia mas que também poderia ser chamado de ilha. Era cercado por algo que um dia pode ter sido chamado de córrego mas que se tornou esgoto sem muito esforço. A cohab foi construída e recebeu como nome “Santa Clara” talvez devido a sua bondade, sua importância como fundadora da ordem feminina franciscana, ou simplesmente pelo voto de pobreza, ela foi lembrada por alguém que olhou aquele bairro e lembrou de Clara de Assis.

Apesar da sujeira e do cheiro o esgoto era palco de diversão para as crianças que corriam entre as valetas ou faziam competições de quem conseguia recolher mais garrafas pets e latinhas. A natureza como sempre se sobressaiu e como mesmo no lixão nasce flor, o esgoto tinha peixinhos que eram pegos pelas crianças e vendidos aos distraídos como peixe de aquário. Além dos amigáveis peixinhos, tinha as aranhas, enormes sapos e rãs, ratos, “baratões” e as cobras que iam desde as pequenas até as maiores que meus olhos já fitaram. No quintal da minha família apareceu uma enorme que foi capturada e morta pelos vizinhos. Foi churrasco a semana toda. China é fichinha.

O preço que minha família pagou na casa na época, hoje não daria para comprar um celular da maçãzinha. Muito pra quem não tinha nada e tão pouco para quem tem tudo.

Quando nasci em 1995 uma enorme enchente atingiu Cuiabá e Várzea Grande. Foram mais de oito mil desabrigados pelas chuvas. Em 1996 nos mudamos para Santa Clara.

Era 2001 e a lenda urbana sempre foi que de 5 em 5 anos uma enchente enorme atingia a região. Parecia que não ocorreria, já havia passado os cinco anos. Mas as intempéries sempre foram presentes na vida de quem não tinha sorte.

Começou a chover e não parou mais. Não foi preciso dias para que tudo se tornasse um verdadeiro caos. O bairro todo alagou, famílias inteiras com água até a cintura, subindo os móveis o máximo possível na tentativa de salvar o que já não fora destruído. Para diversas famílias essa não era a 1a° vez. Elas já haviam sentido o desespero de não poder fazer nada ao ver com a água, a esperança se esvair.

De maneira improvável e superando a iminência da enchente que o esgoto cada minuto mais cheio atrás de casa mostrava, nossa casa não encheu. Novamente, estávamos numa ilha. A única casa que não havia entrado água e ninguém sabia dizer o porquê. Isso não diminuía o medo e o sofrimento, pelo contrário, só aumentava ao ver todos os vizinhos e amigos em desespero. Meus pais foram ajudar aos vizinhos e fiquei na área em frente de casa revoltada, no alto dos meus seis anos de idade, em como apesar dos nossos esforços, nada mudava. O pior, ninguém ajudava. Não tinha bombeiro, polícia, defesa civil, nenhum órgão público responsável dava sinal de ajuda.

Naquele momento o que eu mais desejei foi ser jornalista. Eu queria mostrar para todo mundo como aquelas pessoas sofriam, queria dar a elas a oportunidade de serem ouvidas, vistas, ajudadas. Alguém precisava ser porta-voz dessa gente esquecida. Talvez minha prece tenha sido tão forte que foi ouvida por Santa Clara, padroeira da televisão. 15 anos depois estou na aula de linguagem de vídeo, na faculdade de jornalismo da UFMT, ouvindo meu professor contar quando uma jornalista amiga dele foi responsável pela cobertura das enchentes de 2001.


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