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Algumas perguntinhas

empregado do coronel

Crônica de Aparecido Carmo

— Bom dia, eu sou de um instituto de pesquisas e gostaria de fazer umas perguntas.
— Que perguntas?
— Coisa pouca. Só para testar a memória do senhor sobre alguns assuntos.
— Minha memória?
— Isso! Eu posso começar?
— Poder pode, mas não sei se vou conseguir responder.
— Mas o que é isso?! São coisas muito simples!
— Sei...
— Vou começar: Em quem o senhor votou para vereador na última eleição?
— No filho do coronel Araújo.
— E para quem o senhor votou para prefeito na última eleição?
— No coronel Araújo.
— Viu só, eu disse para o senhor que era fácil.
— Já acabou? Eu tenho que voltar para a venda.
— Ah, o senhor é dono de uma venda?!
— Sou dono, não senhor. O dono é o coronel Araújo, sou só empregado.
— Ah, sim. Faltam algumas perguntinhas e já terminamos. Agora sobre a eleição do ano passado. Em quem o senhor votou para deputado federal?
— No sobrinho do coronel Araújo.
— E para senador?
— No afilhado do coronel Araújo, mas ele perdeu.
— Esse coronel tem uma família bem grande, não é mesmo?! Para terminar: em quem o senhor votou para presidente da República?
— Sabe que não lembro o nome do rapaz... Não é esse que ganhou não. Foi o que o coronel Araújo trouxe aqui.
— Não consegue se lembrar?
— Do nome eu não lembro, não senhor.
— Está tudo bem, já acabamos. Viu como não foi difícil?
— É. Até que não foi.
— Mas antes de o senhor ir embora, me tire uma dúvida.
— Pode mandar.
— Quem é esse coronel Araújo?
— Ah, o senhor não conhece?
— Não conheço. Eu não sou daqui, vim só para a pesquisa e todo mundo fala muito desse coronel.
— O coronel é dono disso tudo aqui.
— De tudo?
— Sim! Essa cidade era toda dele, um terreno imenso onde ele criava gado. Aí ele ficou sabendo que tinha um povo sem terra lá na beira do rio e resolveu ajudar a gente.
— Ah, ele dividiu essa terra entre vocês?
— Que isso! O coronel diz que dar acostuma à vadiagem. Ele vendeu e a gente comprou. Dividiu em trezentas, quatrocentas vezes.
— Tudo isso?
— Ah, mas o preço era bom. Muito melhor que o do banco.
— E faltam quantas parcelas para o senhor pagar?
— Mais de duzentas. Acho que meus filhos é que vão terminar por mim.
— E o senhor está conseguindo pagar em dia?
— Pior que não! A situação tá difícil, as coisas tão muito caras, quase não sobra dinheiro do salário.
— E o coronel, o que diz?
— Ah, o coronel pediu para eu pagar pelo menos os juros.
— E quanto são esses juros?
— Ah, varia de acordo com o mês.
— Como assim?
— Também não entendo. Tem alguma coisa com o dólar. Mês passado eu paguei quinze por cento, mas já teve mês deu pagar quase trinta.
— E não falta dinheiro?
— Às vezes. Mas quando a coisa aperta o coronel sempre ajuda, empresta dinheiro, vende comida fiado.
— Um santo esse coronel!
— Olha, moço, eu tenho que ir. Já passou da hora deu voltar pra venda e o coronel não gosta que a gente chegue atrasando. Ele desconta do nosso salário.
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