Dessa forma, os leitores do "Correio da Manhã" foram apresentados à Otto Maria Carpeux.


Pintura Amigos de Hanna Pauli


No dia 16 de Março de 1938 um escritor austríaco deixava sua pátria, cinco dias depois da invasão nazista. Mais um episódio de exílio começava neste longo interminável martírio da inteligência sobre a terra. É verdade que este escritor, austríaco de nascimento, ampliara, pelo espírito, a sua pátria: tornara-se um escritor europeu e universal. O exílio, contudo, também ampliara os seus círculos morais: tornara-se um fenômeno de todos os homens em todas as terras. O escritor que abandonou o seu país, numa fuga perigosa e cheia de aventuras, continua, assim, em exílio, apesar da universalidade do seu espírito. Ele próprio escrevera mais tarde: “Tout le monde est en exil. Ce ne son point les émigrés, eux seuls, qui s’evadent. C’est toute l’Europe, et, blentôt plus que l’Europe. Toute l’humanité a plié ses tentes pour se mettre em route”.

O seu caminho do exílio foi longo: Itália, Suíça, Bélgica. Depois, por uma intervenção do Papa Pio XII, o Brasil. Em setembro de 1939, entrava em nossas fronteiras. Dois meses, no Rio; um ano, em São Paulo; agora, a volta ao Rio, com o projeto desdobrar o seu caminho de exílio. Uma iniciativa do Correio da Manhã, porém, fez paralisar, ao menos momentaneamente, este projeto.

O escritor austríaco a que estou me referindo, começará a escrever, neste jornal sob o pseudônimo de Otto Maria Carpeux. Porque conheço este escritor — sou talvez o único dos seus colegas brasileiros a conhecê-lo de perto — estou certo que a sua atuação, na nossa vida literária, vai constituir um acontecimento de excepcional significação. Tenho, diante de mim, as cartas que me escreveu de São Paulo, um caderno de notas pessoais, os seus primeiros artigos para o Correio. Todos estes documentos revelam, ao mesmo tempo, um homem e um escritor; um homem, moralmente muito forte, em harmonia com o escritor, intelectualmente muito poderoso.

O pseudônimo contém, ele mesmo, uma dupla revelação. Mesmo na Europa, Carpeaux nunca utilizou seu nome pessoal para os seus artigos e os seus livros. Esta deliberação é uma consequência do seu propósito de jamais confundir uma vida particular de pequeno burguês com uma vida pública de escritor combativo e inconformista. Um propósito de escritor — outrora mais comum, hoje muito raro — que se une com o seu desinteresse em face de sucessos exteriores, com a sua desambição pessoal, com a sua capacidade de se despersonalizar dentro das suas ideias. Sugerindo uma certa ordem de estudos que desejava fazer com o sr. Gilberto Freyre, escrevia em uma de suas cartas: “Veuillez-vous y entendre, je le répéte, avec M. Gilberto Freyre. Puis, mon ambition, très desinteressé, me fait songer: une novelle école de Recife qui utilise l’héritage européenne au profit de l’esprit d’un monde nouveau. Quant à moi, il me satisfera, quand on m’appelera, un jour, un bon camarade.” É que para Otto Maria Carpeaux, a obra só conta, em si mesma, desligada dos seus atributos acidentais. O seu conceito de arte se firma sobre esta proposição: uma obra intelectual é a transformação da personalidade em obra realizada; e a obra será tanto mais pura e perfeita quanto mais completa for a transformação. Inteiramente completa, porém, nunca o será porque então o homem substituiria Deus. A luta por esta transformação completa constitui, no entanto, o destino trágico de todo escritor e de todo artista. Otto Maria Carpeaux conhece o sentido desta luta. O uso do pseudônimo — ele desejaria, com certeza, não usar nome nenhum — é um indício deste conhecimento. O seu ideal é a sua despersonalização na sua obra.

Precisando utilizar um pseudônimo, escolheu um nome francês e não um nome alemão. Por que? Certamente que não se trata de prevenção ou de ódio contra a Alemanha. Ninguém iria confundir, numa mesma condenação, a inteligência alemã que criou Weimar e o prussianismo político do estado alemão que criou Hitler. A escolha deste nome francês, no entanto, se torna explicável por intermédio da formação intelectual do escritor e da formação histórica da sua pátria. O caso pessoal de Otto Maria Carpeaux não é propriamente de cosmopolitismo, mas de universalismo. Os fundamentos da sua vida e da sua cultura são os da Igreja; e um homem católico há de ser, antes de tudo, um espírito ecumênico. Por outro lado, ao contrário do que se pode pensar, a Áustria tem um caráter universalista muito propício para excitar o universalismo deste seu escritor. É um país católico. É um país de influências latinas muito profundas. É um país que sentiu, no seu solo, o encontro de três raças e de três povos. A Áustria representa um corpo nacional muito mais complexo que o da Alemanha. E aqueles, como Carpeaux, que permanecem fiéis à causa da sua independência, não poderiam esquecer os fundamentos desta complexidade. Embora de civilização germânica, a Áustria é uma nação muito latinizada, sobretudo pela Igreja Romana, por uma dinastia de origem espanhola e borgonhesa, pelas suas ligações seculares com a Itália. A seu respeito poder-se-ia falar de uma “Germânia latinizada”. Não devemos esquecer também que, na história do continente europeu, Viena significa o ponto de encontro de três mundos diversos: o mundo germânico, o mundo eslavo e o mundo latino. Por isso a pátria de um austríaco é a Europa, toda a Europa; e Otto Maria Carpeaux é um europeu que sempre foi acolhido na França, na Bélgica, na Holanda, na Itália, como na sua própria casa. Entre os seus mestres estão Max Weber, Benedetto Croce e Alain. Entre os seus amigos estão André Gide, Robert Conte d’Harcourt, os jesuítas P. P. Bichlmaier e Gundlach (este último, um famoso professor de sociologia da Universidade Papal de Roma).

Ao lado dos cursos universitários — doutorado em filosofia, letras e ciências matemáticas e, depois, um outro numa Escola de Sociologia e Política — todos os estudos de Otto Maria Carpeaux se realizaram dentro de um critério absolutamente universal. A sua especialização se orientou no sentido da literatura comparada, para a qual levou o seu conhecimento de oito línguas vivas e mortas, inclusive, hoje, da portuguesa. Escreve, com a mesma naturalidade, em alemão, em holandês ou em francês; e dentro em pouco escreverá na nossa língua, cuja literatura já conhece tão extensa e profundamente quanto se poderia exigir de um brasileiro de classe intelectual. Além disso, são dos mais sérios e profundos seus estudos filosóficos, históricos, sociológicos e literários, como os seus artigos para o Brasil irão revelar. Toda a sua obra na Europa constitui, aliás, uma documentação do que estou escrevendo. Entre as suas antigas atividades quero lembrar as seguintes: uma longa colaboração de artigos franceses para “Cité Chrétienne” (Bruxelas); artigos em alemão, como diretor da página cultural de Reichspost, principal diário católico da Áustria, e em holandês, como redator de Gazet van Antuwerpen, grande jornal católico da Bélgica flamenga; redator-chefe de Berichte zur Kultur und Zeitgeschicht, revista austríaca e ponto de convergência dos católicos mais inteligentes e lúcidos; os seus livros: três sobre as letras e a história da Áustria, um outro soi disant apologético, uma obra de apologia do catolicismo “largo” e evangélico contra o catolicismo “estreito” dos bem pensantes, e, por fim, A Missão Européia da Áustria, o qual se tornou um livro da predileção do chanceler Dollfuss. Quatro dias antes de ser assassinado, como prevendo o seu fim, Dollfuss falava dos tormentos e da inquietação daqueles últimos dias, acrescentando que só encontrava tranquilidade na leitura de A Missão Européia da Áustria. Foi este o livro que o chanceler austríaco leu até as vésperas do seu assassínio. A visão deste livro — a de uma Áustria independente e européia — foi a visão que Dollfuss levou para além da morte. Aliás, sobre esta base da independência da Áustria, é que o chanceler Dollfuss e o escritor Otto Maria Carpeaux sempre se entenderam; quanto aos problemas sociais, ao contrário, nunca puderam se entender porque Dollfuss não quis se libertar inteiramente dos mitos totalitários e Carpeaux quis permanecer irredutivelmente fiel aos seus ideais de verdadeiro cristianismo.

Os primeiros artigos — uns já escritos, outros projetados — da série que Otto Maria Carpeaux vai publicar no Brasil — sem falar de um livro esboçado sob o título de Experiência da Europa — constituem, de uma certa maneira, uma confissão do que há de fundamental no seu pensamento e na sua técnica de escritor. Para facilidade de tradução, os artigos foram escritos originariamente em francês, e devemos contar, na parte estilística, com prejuízos da transposição, embora excelentemente realizada pelo sr. Carlos Gilberto de Lima Cavalcanti. Mas estes prejuízos não impedirão o leitor brasileiro de sentir o verdadeiro estilo de Carpeaux. Um estilo que é muito pessoal, muito direto, muito denso. O conhecimento de tantas línguas e de tantas literaturas, fundamente assimiladas, imprimiu-lhe, ao mesmo tempo, um máximo de variedade e de concentração. Notar-se-á que é um estilo vivo, preciso e ardente. Às vezes, enérgico e áspero. Nestas ocasiões, sobretudo, este estilo está confessando um temperamento de inconformista, de panfletário, de “debater”. O temperamento de um homem que, monologando ou dialogando, está sempre numa atitude de luta; ou a luta interior, consigo mesmo, ou a luta exterior, com os seus adversários. Os assuntos e os desenvolvimentos destes seus artigos brasileiros mostram bem esta disposição dramática e incontrolada: Burckhardt, profeta do nosso tempo (um estudo menos sobre o historiador do Renascimento, que já conhecemos, do que sobre o extraordinário profeta da correspondência e dos aforismas, quase inteiramente desconhecido); Franz Kafka e o mundo invisível (exegese da obra do misterioso poeta que André Gide apresentou aos franceses através de La Nouvelle Revue Française); Decadência? (ensaio sociológico e histórico sobre o conceito de decadência, em oposição ao famoso conceito spengleriano); A Física e a Teologia (uma demonstração a respeito da sobrevivência, na física moderna, das convicções e das concepções da teologia do século dezessete, desde que esta física é a obra de homens impregnados da teologia das suas épocas: Descartes, Kepler, Pascal, Newton, Leibniz); O burguês e o “Burguês” (distinção entre as duas categorias em face de um momento histórico que ameaça destruir, ao mesmo tempo, os valores e os não-valores da época burguesa); As nações e os grandes homens (interpretação de três diferentes experiências históricas que os povos fizeram com os grandes homens através das suas consequências também diferentes); Sunt lacrimae rerum (o papel das “coisas mortas” na poesia moderna); e mais: O catolicismo no Ghetto, Thorton Wilder e a nova geração americana, A literatura italiana dos nossos dias, A Rússia e a Europa.

No ensaio sobre Burckhardt, alude Carpeaux ao pessimismo do historiador suíço para concluir que todo pessimista carrega a matéria de profeta. Poderíamos repetir as mesmas palavras a seu respeito. Carpeaux é um pessimista e é um profeta, ou mais exatamente: é um profeta porque é um pessimista. Nada espera deste mundo nem dos homens, nem dos povos, nem dos Estados. Está certo que nenhum acontecimento modificará a substância da velha e invariável natureza humana. Que as civilizações se sucedem sem que nada suceda de novo dentro dos homens. Que só a Morte é um princípio de Vida. E se este é o seu pensamento no plano filosófico, ainda se torna mais pessimista e mais profético no plano histórico, quanto ao momento que estamos vivendo. Na sua primeira carta, já me havia advertido: “Permittez-moi de vous dire que je suis en état d’estimer à sa valeur votre lutte contre l’alliance de la bestialité avec les imbeciles. Une longue et douloureuse experience — je sui certainement beaucoup plus agê de vous — ne fait pressentir que cette lutte, notre lutte, sera en vain. Voilá, un monde perveti, l’ingratitude enveres la jeunesse; une verité, si banale que cruelle, en échange de la consolation très spirituelle dont je vous remercie.” Mas, ao terminar a segunda carta, convidava-me para esta oração: “Bientôt, la fête du Christ-Roi, nous prierons en commum pour le “regnum veritatis et vitae”; regnum sanctitatis et gratiae; regnum justitiae, amoris et pacis”.

Estes dois trechos não se repelem: eles se compõem e se completam. É que o pessimismo de Carpeaux nada tem de feminino, de frágil, de demissionário. Ao contrário, é um pessimismo consciente, trágico, viril. A certeza da insanidade da luta não significa nem desistência nem covardia. A luta, apesar de tudo, permanece como uma atitude, como uma afirmação, como um testemunho. A luta de um homem dentro do mundo independe do seu êxito ou da sua utilidade. Mesmo quando tudo estiver perdido, ficará como um exemplo, como uma semente, como um protesto. Oberserve-se, por exemplo, este pequeno trecho de uma página de Carpeaux, que me parece destinada a transmitir uma impressão não só do seu estilo, mas do seu pessimismo pascaliano e cristão que não exclui a fé: “Crise, c’est l’aveu de tous ceux qui ne savent plus que faire. Crise, c’est le grand subterfuge de tous ceux qui ont perdu la confiance en les choses, en les hommes, en soi-même. C’est le dernier Credo de l’incredulité. Mais on ne pourrait vivre sans foi, sans foi quelconque. La vie, elle-même, est un acte de foi. C’est pourquoi nous prêferons le mourir; la statistique des suicides augmente en progression géometrique. La vie est abaissé, dévaluée, annihilée, et, enfin, la vie se perd.

Une évolution, rapide sans pareille, et dont nous enorgueillissons encore, nous a égarés vers l’abime. Où chercher, où trouver la vois de retour, la voie de salut?

“Je suis la Voie, la Verité e la Vie”. Mais nous, nous trahissons la vie, nous sommes les fils du mensonge ou lieu des enfants de la vérité, nous n’avons pas de voie devant nous. Nous n’avons pas de vois, pas de vérité, pas de vie; nous n’avons pas de dieu. Nous l’avons abandonné; el il nous a abandonnés.”





Estou certo de que a presença de Otto Maria Carpeaux, no nosso meio literário, significa uma nova corrente de vida, muito rica de sugestões, de ensinamentos, de afirmações morais e intelectuais. Mas gostaria, sobretudo, de vê-lo considerado, pelos escritores brasileiros, como um companheiro e um camarada. Ele que poderia exigir um tratamento de mestre, aceitará, no entanto, este sentimento fraternal de união. E não será certamente um estrangeiro entre nós. Em pouco mais de um ano, já leu centenas de livros brasileiros e portugueses para sentir e compreender toda a literatura da nossa língua. Não só a literatura antiga como a mais moderna. Uma das suas cartas, por exemplo, contém um dos mais agudos estudos sintéticos que conheço sobre as principais figuras das nossas letras. Tudo faz esperar, portanto, um perfeito entendimento entre Otto Maria Carpeaux e os escritores brasileiros. Espero, sobretudo, que se possam tornar uma realidade de sentido geral, tanto de um lado como do outro, estas palavras particulares da nossa correspondência que transcrevo para servir como uma espécie de epígrafe ao seu ingresso na vida literária brasileira: “Nous, les hommes de mêmes ideaux, des mêmes haines et de mêmes esperances, nous nous ressemblons tous, nous nous trouvons, enfin, partout; c’est pourquoi j’ai l’impression de vous avoir connu depuis longtemps”.



Alvaro Lins
Correio da Manhã, 19 de abril de 1941.
Gastão de Orléans, Conde d'Eu
Repentinamente, quando vinha em viagem para esta cidade, atraído pelos festejos do Centenário [da Independência], faleceu, a bordo do “Massilia”, o Conde d’Eu.

Não se podia revestir de circunstâncias mais dolorosas a morte desse grande amigo do Brasil. Tudo, nela, entristece e comove, desde a instantaneidade violenta com que se abateu sobre a sua vítima, até as circunstancias especiais que a envolvem. Era um amigo que nos vinha, em visita, trazer a sua solidariedade à grande comemoração nacional.

Abandonando o tranquilo remanso de sua habitação em França, ele atravessava os mares, com o coração devorado de desejos de ver, numa exposição magnificente, o extraordinário progresso do país amado. Poucos dias faltavam para que ele, de novo, contemplasse a Guanabara, a que o prendiam intimamente tantas e tão queridas recordações da juventude. De súbito, porém, cortando os planos alvissareiros, a morte o fulmina em meio de sua viagem.

Poucos brasileiros têm tantos títulos ao bem-querer nacional como esse filho da terra francesa. O Conde d’Eu, incorporando-se, pelo matrimonio, à Casa Imperial do Brasil, devotou-se à nossa terra, conquistando o melhor e mais expressivo título de naturalização, aquele que vem do afeto, e que se forma o coração. A guerra do Paraguai o viu entre os bravos, pugnando pelo Brasil: as nossas lutas políticas, na Monarquia, encontraram-no sempre alerta, numa atitude conciliatória disfarçada por uma grande discrição.

A República o desterrou, com toda a Casa Imperial. Mas quando o tempo veio tornar possível, sem receios para o novo regime, que se firmara, a presença dos membros da casa real de Bragança, o Conde d’Eu, que durante toda a sua ausência mantivera as suas relações com os amigos de Pedro II, pode encontrar as mesmas dedicações, sem que esbarrassem em qualquer acompatibilidade.

Havia em torno de sua pessoa uma aureola que o destacava. Ele era o esposo de Isabel, a Redentora, dessa figura santa, dessa venerável princesa a quem a perda do trono não tirou a soberania que soube conquistar sobre os nossos corações. E bastava isso para que o Conde d’Eu tiveste, em nosso afeto, um lugar de maior apreço. Ele era o esposo de Isabel, a Redentora.

O tempo foi passando, todavia. À medida que se apagavam os antigos sentimentos das lutas políticas, as figuras principais da Casa Imperial do Brasil tomavam em nossos espíritos relevo e se cobriam de uma aureola resplendente. Hoje, para as novas gerações, Pedro II e a princesa Isabel são como deuses tutelares, que por um momento protegeram o Brasil e lhe permitiram encaminhar-se para o seu glorioso destino. O lugar de cada um deles é menos em nossos espíritos do que em nossos corações; os sentimentos com que os prezamos são sentimentos de afeto.

Os antigos possuíam os deuses lares, a que se confiava a guarda dos destinos domésticos. Hoje, a estéril impiedade destruiu as divindades lares e deseja criar, para is seus lugares, o culto dos heróis. Se tivéssemos que indicar quem havia de tomar, entre nós, o papel desses deuses lares, a Pedro II e a Isabel, a Redentora, havia de tocar certamente a escolha, porque eles tiveram pelo nosso pais, verdadeiro amor, desse que vê no sacrifício a felicidade de se revelar. O Conde d’Eu incorporou-se a esses sentimentos com a mesma intensidade e dedicação. Amou o Brasil como o mais fervoroso dos brasileiros. No momento em que ele desaparece, o sentimento dessa forte comunidade de afetos nos deve levar a prantear a sua morte com sinceridade e fazer com que as nossas homenagens lhe sejam rendidas de modo a que se compreenda o bem-querer muito íntimo e muito forte com o que o prezávamos.


E que todos sintamos em nossos espíritos o peso desse luto que se abate sobre todo o país, porque acaba de falecer um verdadeiro amigo do Brasil!




Luiz Felipe Maria Ferdinando Gastão de Orleans, Conde d’Eu, nasceu em Neuilly-sur-Seine, a 28 de abril de 1842.

Casou no Rio de Janeiro, a 15 de Outubro de 1864 com a Princesa Isabel de Bragança.

Era filho do Principe Luiz, Duque de Nemours, nascido a 25 de Outubro de 1814 e falecido a 26 de Junho de 1896, e da Princesa Victória de Saxe Coburgo e Gotha, nascida a 14 de Fevereiro de 1822 e falecida a 10 de Novembro de 1857.




A morte do Conde d’Eu foi-nos fornecida pelo seguinte radio, recebido pela Agencia Americana:

“OLINDA, 28 (Radiogramma de bordo do “Massilia”) – Em viagem para o Rio de Janeiro, para onde se dirigia, afim de assistir aos festejos comemorativos do Centenário da Independência, acaba de falecer, repentinamente, o Conde d’Eu.”

Mais tarde recebemos o seguinte:

“BORDO DO ‘MASSILIA’”, 28 Radio – Via Olinda (A.) – Causou profunda consternação a todos os passageiros o falecimento inesperado do Conde d’Eu, que, em companhia dos príncipes seus netos, viajava para essa Capital, afim de assistir os festejos do Centenário.

Por motivo do lutuoso acontecimento foram suspensas as festas que se realizavam a bordo, tendo o Dr. Frederico Castello Branco Clark apresentado à Princesa Maria Pia, viúva do Príncipe D. Luiz, as condolências do Governo brasileiro, e radiografou ao Príncipe D. Pedro de Orleans, que está em viagem para essa Capital a bordo do “Curvalio”, preparando o seu espírito para receber a dolorosa notícia.

O Sr. Dr. Marcelo T. Alvear, Presidente eleito da República Argentina, e o Sr. Adolf Max, Burgo-Mestre de Bruxelas, também apresentaram condolências a Princesa Maria Pia.

Foi armada uma câmara-ardente, onde foi colocado o corpo do príncipe extinto, para a qual tem afluído todos os passageiros. Os brasileiros velarão o corpo do Conde d’Eu”.




Publicado pelo Jornal do Brasil em 29 de Agosto de 1922. 


Nós nos vimos integrando na compreensão dos destinos do Brasil, da qual tão desviados andávamos... O Brasil, país imenso e novo, precisa produzir e progredir. Cada cidadão, pois, deve organizar a sua vida dentro de normas utilitárias e práticas. O poeta boêmio é, assim, um tipo que aqui não pode mais existir. O último deles foi decerto esse pobre B. Lopes, ontem colhido pela morte.

É de notar que o próprio B. Lopes, além de poeta integralmente boêmio, era Bernardino da Costa Lopes, funcionário aposentado dos correios.

 B. Lopes teve uma larga época brilhantíssima, de inteiro sucesso.

Com uma bela resistência conseguiu viver longos anos depois que se deixou empolgar por um intenso desregramento. Boêmio por temperamento como pelas influências da época em que ascendeu e fulgiu, desapareceu com 57 anos feitos, pois o seu nascimento ocorreu na cidade fluminense do Rio Bonito em 18 de janeiro de 1859.

De há muito deixara ele de escrever e quase ninguém dele se lembrava. Os seus versos, com uma porção de qualidades magníficas, entre as quais avultavam a espontaneidade e a harmonia, faziam novos admiradores. Mas ninguém sabia o que era feito do inspirado e heráldico cantor de tantas condessas e duquesas nobres como as reais senhoras do Brasil. E dizia-se apenas que ele descambara franca e vertiginosamente pelo álcool.

Mas no quatriênio passado, B. Lopes, de repente, teve um momento intenso de notoriedade.

Amigos do governo organizaram uma polvanteia e pediram a colaboração do poeta. Este escreveu um soneto, que os organizadores da homenagem fizeram imprimir sem ler. Quem não se lembra do pitoresco escândalo desse soneto, em que havia o famoso verso – bonito herói, cheirosa criatura?

B. Lopes queria fazer uma troça ou estaria irremediavelmente atingido?

Foi essa a hipótese que infelizmente, se confirmou com a notícia da sua entrada para o Hospício Nacional. Saiu de lá bem melhor. Mas o destino dos homens é inexorável. A boemia que o devia matar o reempolgou. E ontem deixou de existir, na casa da Rua Cesária, nº 12, no Engenho de Dentro,o autor dos Chromos, que nos seus anos de glória chegou a fazer escola no Brasil...

B. Lopes deixa uma obra considerável, complexa e encantadora.

Em Sinhá Flor, em Dona Carmen e em outros livros, foi um lírico vibrante e formoso.

Os Chromos são pequenos quadros da vida de todos os dias, deliciosamente feitos.

A sua preocupação aristocrática, os seus versos com duquesas, com galgos nobilíssimos, desenrolando cavalgadas reais através do volume dos Brazões, profundamente ingênuos, mas de forma arrebatadora e fluente, marcaram, com os versos de paixão, a primeira fase da sua carreira literária e valeram-lhe a popularidade e triunfos.

Como verdadeiro artista, porém, B. Lopes estava no caminho da perfeição. Nos sonetos dos Helenos ele é um artista mais seguro, mais equilibrado, com uma visão mais larga, um sentimento mais profundo das coisas.

Produzindo com facilidade, não houve gênero que não tentasse. Um dos seus sonetos místicos Foederis Area, tem merecido a honra de ser incluído nas nossas antologias.

Nos últimos volumes por ele publicados há versos inteiramente admiráveis, em que uma grande beleza é atingida, graças a uma emoção sincera e a uma simplicidade instintiva. São sonetos como O Velho Muro, que assegurarão a B. Lopes um esplêndido lugar na posia brasileira. 

O poeta revê um muro de chácara, que a ação do tempo vai demolindo e cobrindo de musgo. E lembra-se de uma história de amor, que sobre tal ruína, noutro tempo maravilhosamente floriu. E como sabe evocá-la!


Forte e novo eu te vi na idade bela
Em que, falando para o namorado,
Tinhas no ombro de pedra debruçado
O corpo senhoril de uma donzela

Linda hipomeia te bordava a crista
Eras, ao luar de leite, um linho albente
- Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

Em ti pousava a doce borboleta:
E quantas noites viste, ermo e silente, 
Romeu beijando as mãos de Julieta!


Se B. Lopes viveu e morreu como boêmio, e foi o último dos boêmios de seu tempo, não há dúvida que em torno de seu berço se reuniram as Musas. Ele nasceu poeta e como tal brilhantemente há de ficar.




 Publicado no jornal "O Paiz" em 19 de setembro de 1916 na coluna "Vida Social".

Imagem: Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles. Avenida Central na altura da Rua do Ouvidor, com rua Miguel Couto, Rio de Janeiro, c. 1906. Negativo de Vidro. Reprodução: site "Rio Primeiras Poses".



Winston Churchill, ex-primeiro-ministro britânico



Churchill. Publicado pelo jornal "Correio da Manhã" em 26 de janeiro de 1965.

Houve um momento em que a Inglaterra esteve sozinha na guerra contra a Alemanha. Os exércitos nazistas ocupavam a Europa ocidental com a exceção da Espanha e de Portugal que permaneciam neutros em face do conflito. A França havia tombado diante de Hitler, e Pétain, que assumira o governo, dispusera-se a assinar a rendição de seus exércitos tal como a Alemanha exigia. A situação da Inglaterra era a mais grave e a mais dramática possível. Não estava preparada para a guerra. Hitler tinha conhecimento do clima de apreensão que existia no governo inglês. Começaram as tentativas de invasão e, em seguida, os bombardeios de Londres. Estaria tudo perdido? O que estava em jogo não era só o destino do Império Britânico. Era também o destino da democracia na Europa. Foi nesta hora que a personalidade de Winston Churchill manifestou-se em toda a sua grandeza. A energia, a perseverança, a indomabilidade de seu temperamento combativo contribuíram para criar as condições necessárias de resistência que levariam um povo ameaçado a defender igualmente a nacionalidade e o regime. Porque a segunda guerra mundial era bem diferente da primeira. Não se tratava, apenas, de defesa nacional. Tratava-se de luta contra o fascismo, contra o regime totalitário que poderia, pelo terror, conduzir a humanidade a uma nova Idade Média, ainda mais funesta, porque seriam empregadas contra a civilização as próprias conquistas da tecnologia e da ciência. Tratava-se de preservar a liberdade humana que se achava em perigo diante da ofensiva gigantesca de uma máquina de guerra que visava à escravização da humanidade.

A Inglaterra esteve só. A França recusara um convenio de aliança instalado em Londres. A Rússia de Stalin assistia impassível à conquista da Europa em vista da Europa em vista do pacto de não-agressão que assinara com a Alemanha. Os Estados Unidos não se mostravam dispostos a participar da guerra para socorrer eficientemente a Inglaterra.

Winston Churchill resolveu resistir de qualquer maneira com a teimosia de um bull-dog. “Sangue, suor e lágrimas” foi a divisa da resistência da Inglaterra. E esta resistência Churchill a organizou de uma forma admirável. Graças a ela, que foi tomando corpo com o tempo, salvaram-se a Inglaterra e a Europa do domínio nazista.

O papel de Churchill, em nosso tempo, toma um caráter épico pela solidão da Inglaterra na luta contra Hitler. Uma solidão que daria elementos para despertar a consciência democrática do mundo diante do perigo mortal.

A história mostrou, mais uma vez, que o regime da força, da violência e do terror teria de ceder diante do ideal de ser livre. Mostrou também que, nos momentos em que tudo parece perdido diante da ameaça totalitária, há sempre uma reserva no fundo de todos os povos, um sentido de autodefesa que os conduz a lutarem desesperadamente e a alcançarem a vitória, evitando o retrocesso que custaria a própria liberdade.

Winston Churchill foi a peça decisiva num dado momento da história. Qualquer que seja a restrição que se possa fazer ao seu conservadorismo ideológico e político ninguém pode negar o papel admirável que ele desempenhou na luta contra a Alemanha e contra o fascismo.

Hitler nunca supôs que a Inglaterra, sozinha, resistisse como resistiu. Acreditava sinceramente num armistício que garantisse à Inglaterra o seu império colonial. Mas Churchill permaneceu inabalável no propósito de resistir. E resistiu para vencer.

Ele sabia que, após a guerra, seria inevitável a libertação das colônias. Mas isto era inevitável em decorrência da evolução econômica e histórica do mundo moderno. O essencial era derrotar o inimigo que ameaçava atravessar o mar da Mancha. O essencial era aniquilar o regime de que Hitler era o representante.

Após a vitória, o seu destino estava cumprido. Poderia retirar-se da cena, a fim de que outros homens, numa nova conjuntura da política mundial, realizassem a obra que a época exigia.



A morte de Churchill consterna a humanidade. Ele foi um homem acima das dimensões comuns. À beira de uma época de dúvidas e angustias projetou-se como um herói. E como herói provou que a defesa da democracia desperta uma bravura bem maior do que a inspirada pelos regimes em que o povo apenas segue a vontade de um chefe.









A lição de Churchill. Publicado pelo jornal "Diário Carioca" em 26 de janeiro de 1965.

Dizer que a morte de Winston Churchill consternou, profundamente, a opinião pública mundial, não é dizer tudo. Cumpre acrescentar que privou o Século XX do seu maior estadista, o grande apóstolo da Dignidade Humana — esse valor fundamental pelo qual o homem atinge sua realização absoluta.

Sem a posse da própria dignidade, que inclui a consciência da dignidade alheia, não há culto válido dos demais valores morais. Para Winston Churchill, a "batalha da Inglaterra", nos anos negros de 1940 e 41, não era um ato isolado de bravura nacional, era muito mais que isso: a demonstração, para a Europa subjugada, de que cada povo tem o dever, em nome da sua História e das gerações vindouras, de lutar pela liberdade até o último homem, de preservar sua dignidade até o limite máximo de resistência. Daí a transcendência das palavras de agosto de 1940, quando se cumpria a sinistra ameaça de Hitler, de escurecer os céus da Inglaterra com as esquadrilhas da Luftwaffe: "Defenderemos nossa ilha custe o que custar. Lutaremos nas encostas, nos pontos de desembarque, nos campos, nas ruas, nas colinas. Nunca nos renderemos. E ainda que esta ilha ou grande parte dela fosse dominada, o nosso Império continuaria a luta do outro lado do mar!"

Aquela voz enérgica, brotada das profundezas da indignação sagrada, ressoou em todos os aparelhos de rádio, onde quer que houvesse a esperança da vitória sobre a barbárie e o despotismo. Inflamaram de novo ânimo a têmpera dos soldados britânicos encurralados na Ilha; iluminaram, como que por ação sobrenatural, as feições daqueles que resistiam, heroicamente, nos esgotos e nas montanhas dos países subjugados: aqueceram os corações das mulheres sobressaltadas pela sorte dos maridos e filhos no "front". Já não era o estilo vitoriano do grande orador que se fazia ouvir por todo o Ocidente deflagrado, mas a linguagem direta em que a fé nos recursos mais nobres do espírito humano sabe se exprimir. Tão direta quanto aquele gesto de dois dedos em V, mais eloquente que os tropos da retórica.

Foi, ainda, o culto da dignidade humana que levou Churchill a repelir, na Conferência de Teerã, a proposta de Stálin, de após a vitória dos Aliados fuzilarem-se, sem julgamento, os criminosos de guerra nazistas. Replicou, secamente, o "premier", segundo testemunha Elliot Roosevelt, filho do presidente norte-americano. "Na minha opinião, nazi ou não, ninguém deve ser 'levado perante um pelotão de fuzilamento sem que antes tenham sido estudadas todas as provas e indícios de sua culpabilidade". Nuremberg, dois anos após, viria confirmar- lhe a tese.


Por estas e tantas outras atitudes, Sir Winston Leonard Spencer Churchill será lembrado, enquanto existir a raça humana.
Princesa Isabel de Orleans e Bragança


Pouco a pouco abalará o país, numa comoção espontânea, essa notícia que há momentos temos sob a vista - o falecimento, em Paris, da Princesa Isabel. Será um dia lúgubre e nenhum coração de brasileiro poderá deixar, neste dia, de se confranger com o acontecimento lutuoso. 

Temos, de certo, grandes homens e possuímos, mercê de Deus, alguns nomes raros capazes, pelo mérito que tem, de honrar a qualquer país, elevando a pátria com o brilho dos valores que traduzem. Mas entre todas as nossas grandezas, entre a coorte numerosa de nossos homens eminentes, destacava-se pela sua significação especial essa Princesa que o Destino acaba de derrubar, num de seus golpes inclementes. E tão alta e tão nobre era a sua grandeza que só de a podermos apontar nos vinha um orgulho legítimo.

De certo que outras gerações é que a haviam adorado. E o tempo passou com a sua pressa e as suas destruições e veio outra gente com uma outra alma, outra mentalidade e um desprezo completo pelo passado. Era a mocidade e esta ignorava a glória de Isabel, a Redentora. Felizmente, porém, das flores trancadas sobe o perfume que delicia e da santidade de Isabel acendeu até os nossos tempos a notícia de sua grandeza e foi esse um perfume que nos encantou e nos fez erguer a cabeça e sorrir, no orgulho de um nobre passado.

Muito se tem escrito da Abolição, mas ainda não se fez o trabalho necessário de divulgar amplamente os seus episódios e a sua significação. No dia em que toda a gente souber do que foi esse movimento, muito pessimismo virá por terra quando nos capacitarmos da existência demonstrada duma consciência nacional.

Que papel teve nele Pedro II? E a Princesa Isabel? Não nos cumpre nesse momento indagar. Basta dizer que a opinião pública despertou, agitou-se, formando-se em sociedades deliberadas que promoveram a campanha mais gloriosa de nossa história. E foi subindo a opinião pública de conquista em conquista, até o triunfo completo. A proibição do tráfico de negros, a lei do ventre livre e a libertação dos sexagenários foram vitórias parciais de uma campanha, etapas necessárias da marcha para a Abolição.

Cedeu logo o Imperador ou resistiu hostilizando o movimento? Não importa ainda sabê-lo, mesmo porque é impossível dizer qual devia ser, naquele momento, o papel de Pedro II, porque tão útil era concorrer para a abolição como resistir, desde que os embaraços serviriam para preparar o advento da lei. E se a Abolição não nos foi um grande desastre é porque a precedera o longo trabalho da preparação. 

Isabel ligara o seu nome a três etapas decisivas do abolicionismo. Ela que promulgara a lei do ventre livre, com o ministério Rio Branco; ela, ainda, que promulgara a lei de alforria dos sexagenários; ela, finalmente, que promulgara, a 13 de Maio, com o Gabinete João Alfredo, a definitiva Abolição da Escravatura. E por tudo isso lhe deram, com justiça, o nome de Isabel, a Redentora.

Meditemos um instante na significação desse título. Pensemos na tragédia da escravidão no horror das senzalas, nos suplícios contra o corpo e contra a alma, na abjeção do comércio nefando e vemos então que ter sido Redentora desse mal é uma auréola de santidade, um serviço tão grande que toda a vida prosternados diante de sua imagem não recompensaríamos bastante.

O seu benefício não foi somente o Brasil de ontem; também para o Brasil de hoje, pelas repercussões daqueles atos, ela é bem Isabel, a Redentora.

Porque escravidão não era apenas flagelo para uma raça, mas para todo o país. A mentalidade dos escravocratas era uma desgraça imensa para o Brasil com todos os seus prejuízos e todos os seus desmandos. A escravatura, no dizer de um dos nossos mais ilustres pensadores, era um cancro que devastava o organismo nacional. Curamo-lo, mas quantos traços conservamos do mal? Como não é horrível a sua cicatriz?

Curamo-lo, em todo o caso, e mais algum tempo desaparecerão os últimos vestígios do mal. Foi um passo incomparável de nossa história e saibamos prezar, por isso, a Soberana que ligou o seu nome às etapas dessa campanha. Saibamos honrar Isabel, a Redentora, cultuando-a carinhosamente, prestando-lhe as homenagens que lhe devemos.

Podemos ter, neste momento, uma satisfação: - é que a santa septuagenária pôde verificar, pouco antes de sua morte, que seu nome só inspirava, no Brasil republicano, uma carinhosa veneração.

Não serão outros os sentimentos que a notícia de sua morte acordará no coração dos brasileiros. E é de justiça que todo país, hoje, saiba cumprir o seu dever de gratidão para com essa Princesa magnânima que soube servir ao Brasil no maior de nossos acontecimentos e que no instante em que a morte a derrubou bem poderia ter resumido a sua vida como 75 anos de um amor imenso e desvelado pelo Brasil.

Seríamos péssimos patriotas se não soubéssemos ser gratos a Princesa generosa, à Princesa excelente, à Isabel, a Redentora, àquela que foi na sua existência uma constante irradiação de bondade.





A Princesa Isabel era filha do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz D. Thereza, Princesa das Duas Sicílias.

Nasceu no Rio de Janeiro a 29 de Julho de 1846 e recebeu os nomes de Isabel Cristina Leopoldina Agostinha Michaela Gabriella Raphaela Gonzaga de Bragança.

Casou-se nesta capital a 16 de Outubro de 1864 com o Príncipe Gastão de Orleans, Conde d’Eu.

Por duas vezes foi regente do Império e por duas vezes ligou o seu nome aos maiores fatos da nossa história político-social.

Foi ela que assinou a Lei de 28 de Setembro de 1871 e a lei Áurea de 13 de Maio de 1888.

Foi, incontestável, esse o maior dia de sua vida.

O projeto de lei, apresentado à Câmara, teve ali um curso muito rápido, indo logo para o Senado onde ainda mais rapidamente foi discutido e votado.

O Rio de Janeiro em peso aglomerava-se no campo de Santa Ana e, quando a redação da lei foi votada, das galerias choveram flores sobre os velhos senadores que estavam dominados pela emoção.

A Princesa Isabel viera de S. Cristóvão para o Paço da Cidade especialmente para firmar a Lei Áurea com uma caneta de ouro que José do Patrocínio adquirira por subscrição pública.

Ao assinar a lei a Princesa estava visivelmente emocionada. Não lhe era possível esconder o júbilo que lhe ia na alma. E, no entanto, ela sabia que assinando a lei que declarava que daquela data em diante não havia mais escravos no Brasil, assinava também, tacitamente a sua renúncia ao trono.

A campanha abolicionista fora rude. Os pioneiros dessa santa cruzada não pouparam esforços para alcançar o triunfo e para isso empregavam todas as armas. O trono foi muitas vezes alvejado pelos abolicionistas, mas naquela hora, grandiosa e solene todos os abolicionistas estavam ao lado do trono exalçando a Sereníssima Princesa que assim sacrificava um trono para libertar uma raça.

O Rio de Janeiro vibrou de entusiasmo durante quinze dias, tantos foram os que duraram as festas com que se comemorou o grandioso fato histórico.

As ruas da cidade engalanavam-se à porfia e nunca mais até hoje houve tão brilhantes ornamentações como as que então se fizeram.

A rua do Ouvidor era um verdadeiro buquê de flores e assim, as ruas dos Ourives, Uruguaiana, Quitanda e outras.

A Princesa foi a todas as festas, e por toda a parte o povo se apinhava em torno do coche imperial, saudando a excelsa senhora.

Houve quem por vezes lhe visse a bailar nos olhos lágrimas de emoção e de satisfação de dever cumprido.

Talvez que nessas horas de alegria uma nuvem lhe perpassasse pela mente, nuvem negra que se formava, tão negra como a raça que ela libertara.

Era formada pelos descontentes, pelos que viviam do trabalho escravo e que se sentiam prejudicados pela Lei Áurea.

O Papa, por essa ocasião, ofereceu à Princesa Isabel a Rosa de Ouro, alta e distinção raramente conferida por Sua Santidade.



A Princesa Isabel era querida do povo e sobretudo dos pobres que ela socorria, o mais das vezes ocultamente. No Palácio Guanabara davam-se mensalmente vultuosas esmolas que a imprensa não noticiava porque eram conservadas em segredo. Só os beneficiados pela mão da princesa é que a bendiziam e que nas suas orações não cansavam de pedir aos céus benesses e venturas para ela.

Mãe extremosa, educava os filhos com todo o carinho, dando-lhes bons mestres e obrigando-os ao estudo severo.

Dois grandes desgostos teve, quase no fim da vida, e quase seguidos. O primeiro com a morte de D. Antônio, durante a grande guerra, num desastre de aviação, e o segundo com a morte do Príncipe D. Luiz, em consequência de moléstia adquirida nas trincheiras onde ele se batera com heroísmo.

Ampararam-na nesses dolorosos transes os braços já trêmulos do seu velho companheiro de mais de meio século, o Conde d'Eu e seu filho D. Pedro, que não há muito  aqui vimos, admirando as belezas da sua pátria que ele deixara criança e que revia homem.

Desde então ficou-lhe o coração combalido e uma congestão pulmonar fê-lo deixar de pulsar, levando-lhe a vida tão preciosa e encerrando no livro de ouro da História a história da sua vida.

Por certo, o seu último pensamento foi para esta terra que a viu nascer, que ela amou tanto que não pode rever, mas onde, sem dúvida, dormirá o seu último sono, ao lado de seu pai o Magnânimo Imperador, e à sombra das verdes palmeiras e cercada pelas hortênsias de que ela tanto gostava, quando, nos verões de Petrópolis, passeava pelas longas avenidas que margeiam o Piabanha.

A morte cerrou-lhe os olhos para sempre, mas a Glória abriu-lhe de par em par as portas do seu templo!



A notícia da morte da princesa Isabel tivemo-la por intermédio da Exma. Sra. Baronesa de Loreto, que recebeu o seguinte telegrama do Conde d'Eu:

“PARIS, 14 (Às 9.15 horas) -  Baronesa de Loreto - Rio de Janeiro. -  Imerso na maior dor comunico queridíssima Princesa falecida de fraqueza cardíaca, agravada por congestão pulmonar. Rezem por nós. - (a.) Conde d’Eu.”



Até a última hora o Governo não havia recebido nenhuma comunicação oficial.







Obituário publicado pelo "Jornal do Brasil" em 15 de novembro de 1921.